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Back to basics (jan. 2013)

Limpemos o pó às memórias do cálculo proposicional que os nossos professores do ensino secundário se terão esforçado por que aprendêssemos, e analisemos a seguinte argumentação:
1.      Irrepreensivelmente – julgo eu – no programa RTP Notícias a 05/12/2012 (disponível online) António Borges insistiu que argumentemos na base do respeito pela realidade.
Por exemplo, como para investir não podemos deixar de contar com capital, classificaremos como “real” a possibilidade de investir quando esse último estiver disponível, e como “irrealista” a pretensão de investir mesmo quando não houver capital.
A primeira situação verifica-se quando o capital tiver sido acumulado, ou quando se encontram investidores que cobrem juros comportáveis pelo previsível retorno do investimento. A segunda verifica-se quando não ocorrer uma coisa nem a outra.
Considerando que para crescermos precisamos de investir, mas que o Estado, as empresas e as famílias estão descapitalizadas, ficamos com a frase condicional: se não anularmos o défice externo – para voltarmos a ter crédito – então não crescemos. Em linguagem lógica formal: se não-P então não-Q. Ou nos termos da lógica indutiva, o equilíbrio pode não ser suficiente, mas é necessário ao crescimento.
            Em geral, sempre que nos reconhecermos limitados por algo podemos assumir aquele valor do realismo, e raciocinar na sua base como propôs Borges.
2.      Propôs, mas não o fez.
Pois a seguir tomou como sua primeira premissa uma frase condicional com os mesmos elementos, e pela mesma ordem, mas em forma afirmativa e já não negativa: se anularmos aquele défice, então crescemos (se P então Q).
Depois tomou como segunda premissa “o défice externo está praticamente anulado” (P) – que o Boletim do Banco de Portugal de novembro atesta ser verdadeira – para concluir (pela regra modus ponens) que em pouco tempo começaremos a crescer (Q).
Com aquela substituição da forma negativa pela afirmativa estabeleceu portanto que o equilíbrio será mesmo suficiente para o crescimento.
Acontece porém que a frase condicional, na forma afirmativa, equivalente à que começámos por assumir inverte a ordem dos elementos: “se crescemos, então anulámos o défice externo” (se Q então P). E pretender retirar a referida conclusão nesta outra base, uma vez dada a boa notícia do BdP, seria cometer a falácia afirmando o consequente!
3.      Para a evitar, creio que a actual teoria económica apenas pode invocar o realismo ao escolher premissas verdadeiras para um de dois silogismos disjuntivos (R ou S, não-S, logo R; …ou não-R, logo S).
Pois o que encontro nesse menu teórico é uma contraposição entre a explicação do crescimento pela ausência de entraves estatais ao funcionamento do mercado (o R para Borges), a qual muito valoriza o equilíbrio externo; e a explicação pela intervenção do Estado na correcção de defeitos intrínsecos ao mercado (S). Mas, para se assumir qualquer destas explicações, é necessário apontar evidências, realistas (!), da sua legitimidade, e justificar que a explicação alternativa será pior.
Desenvolver essa argumentação numa entrevista televisiva não deverá ser fácil – como menos ainda o seria fundamentar nas 525-535 palavras de cada uma destas crónicas os pressupostos hoje aqui assumidos! Em todo o caso, se mantivermos estes últimos, a opção de António Borges pela primeira teoria económica e a de outros pela segunda, enquanto não forem assim desenvolvidas, mais do que argumentos, constituem apostas talvez razoáveis… ou meras fezadas.

in: Açoriano Oriental, 09/01/2013 - série "Novas conferências do Casino", em desenvolvimento do ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos.

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