Numa pequena entrevista em maio à revista literária
digital Novos Livros, voltei a
assumir o meu compromisso com “a concepção do
ser humano como pessoa – isto é, como
um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente
determinado por um fator inato e/ou outros adquiridos.” De regresso a
este âmbito da integração sociocultural das ciências, porém, logo me vejo
obrigado a deitar, naquela fervura literária, alguma água fria das neurociências.
A redução da
mente ao cérebro
Com efeito, intimamente experimentamo-nos como livres.
Por exemplo, eu experimento esta minha escrita destas palavras como resultado
de uma minha decisão livre de as escrever; o leitor experimenta a sua leitura
delas como resultado da sua decisão livre de ter começado a lê-las e ainda
continuar, etc.
Entretanto, há muito se tornou um lugar-comum que tais
experiências mentais não ocorrem fora dos cérebros de cada um. E é aqui que
começam os problemas – como logo reconheceu o grande filósofo e grande
matemático René Descartes, também um dos pais das neurociências: como se liga
um órgão material (que ocupa um certo espaço – interior do crânio – num certo
tempo – da vida) a uma instância imaterial como a mente?
A resposta mais simples é diluir esta última,
reduzindo-a ao cérebro. Isto é, o que quer que, perante estas palavras neste
computador ou neste papel, eu e o leitor vejamos, sintamos nos dedos… raciocinemos,
lembremos… reduzir-se-á a outros tantos processos cerebrais. Os quais são de
natureza eletroquímica.
De modo que, num qualquer Matrix, se se ligasse o cérebro do leitor a uma bateria, e a um computador
cujo programa selecionasse o impulso elétrico que desencadeie o circuito
cerebral a que se reduza a “decisão” mental de suspender a leitura, programando
esse impulso para qualquer momento de visão da palavra “Matrix”… o leitor já
não estaria aqui comigo desde o início desta frase.
Uma tal bateria pode ser o organismo capaz de
transformar em energia o oxigénio, alimentos, etc. E o programa pode ser aquele
que a seleção natural apurou na espécie humana (e que temos inscrito no código
genético). De modo que, então, eu receberei a determinação de escrever estas
palavras, e o leitor de as ler ou de as abandonar, mas em nenhum de nós se
verificará algo como uma consciência mental que livremente pondera, decide e
causa tais ações.
Ou seja, não seremos “pessoas”. Mas sim máquinas vivas,
regidas por leis biológicas, assentes em leis físico-químicas.
E, por exemplo, Abraão, Jesus de Nazaré e Maomé, terão
sido meros alucinados por insolações no deserto. Nenhum ritual corresponderá a
alguma alma pela simplicíssima razão
de que o conceito “existe” apenas se aplicará às coisas que satisfaçam o
conceito “matéria” – Esses rituais consistirão na melhor resposta, que a
seleção natural apurou, ao problema da ansiedade pela perspetiva da morte,
perspetivação essa que também virá incluída no apuramento do homo sapiens pela seleção natural. Portanto,
um truque desta seleção, equivalente
ao truque dela gerar em nós a
experiência de uma liberdade de escrevermos e lermos certas palavras, etc.
Qualquer neurocirurgião ou psiquiatra, ao manipular o
cérebro cirúrgica ou quimicamente para causar (“ascendentemente”) o fim de
certos processos mentais ou o recomeço de outros, endossará essa tese ou inclinar-se-á
para ela.
Ora a neurocirurgia e a psiquiatria funcionam razoavelmente.
A medida deste sucesso será a medida da força do argumento da redução da mente
ao cérebro, além do valor da simplicidade teórica desta redução.
E assim se negará o livre-arbítrio, que por definição
é próprio de uma consciência capaz de ponderação, de decisão, e de causar (“descendentemente”)
comportamentos do corpo físico. Por consequência, o ser humano não poderá ser
concebido como “pessoa”. Pelo que o livro tratado naquela entrevista também
terá sido escrito sob alguma insolação (além do alçapão que se abre sob os pés
dos autores da “Coluna Liberal”, no Diário
dos Açores)!
Contra tamanho banho gelado, porém, é a própria
psicofisiologia que hoje parece permitir a perspetiva de um aquecimentozinho
futuro.
Para uma mente
emergente além do cérebro
Lendo a apresentação das atuais neurociências por João
Marques-Teixeira e Fernando Barbosa (Epistemologia
das Neurociências, PDF, 2016/17), não diria que estas hoje fazem mais do
que “permitir a perspetiva”… Mas este é mais um daqueles caminhos que se farão caminhando,
logo veremos onde nos irão levando.
Esses investigadores do Laboratório de
Neuropsicofisiologia da Universidade do Porto repensam as neurociências à luz
do paradigma epistemológico “sistémico-comunicacional-informacional” (Edgar
Morin falou em “pensamento complexo”…), que tem vindo a substituir o anterior
paradigma analítico e reducionista – Digamos que, neste último, qualquer campo
da realidade (metabolismo, meteorologia, gestão empresarial…) explica-se como
uma casa em Lego: reduzindo-a a meia dúzia de peças tipo, e a umas poucas
regras da combinação destas. Essas explicações tiveram porém normalmente
dificuldade em dar conta dos fenómenos na complexidade em que estes realmente
ocorrem, sendo-lhes por isso opostas explicações que tomam os sistemas por
inteiro, enfatizando as comunicações entre os seus elementos, e entre o sistema
e o exterior. (Voltaremos nesta coluna a essa alteração paradigmática, e à
própria noção de “paradigma científico”).
Reconhecem-se assim dois sentidos na causalidade cerebral:
“ascendente”, dos neurónios considerados individualmente sobre as redes
neuronais, e destas sobre os comportamentos sociais, económicos… do indivíduo.
Mas também “descendente”, das aquisições feitas no “diálogo” com o ambiente
natural, social, político… sobre aquelas redes, e mesmo sobre os neurónios.
Até aqui, não encontra conforto quem, como eu, procure
alguma sugestão de livre-arbítrio, e assim de pessoalidade do ser humano. Ao
contrário, como se não bastasse a determinação simples do reducionismo analítico,
estes atuais neurocientistas vieram ainda complicá-la com esse jogo de
determinações ascendentes e descendentes!
A tal perspetiva de um futuro aquecimentozinho encontro-a
porém na p. 14 (op. cit.): “a
história evolutiva (…) possibilita um conjunto de operações que resultam (…) da
interação com um mundo interno no contexto do sentido e significado da
existência” (além das interações naturais
e sociais).
Um “mundo interno”, onde se joga a questão do “sentido
e significado da existência”, escapará, parece, à dupla causalidade dos neurónios
sobre o ambiente e vice-versa.
Faltará então à psicofisiologia – como disciplina articuladora
do conjunto das neurociências e das ciências comportamentais – alargar esse jogo
“vertical” (“ascendente e descendente”). Ou talvez falte por inteiro um outro
paradigma científico que o permita…
E talvez um dia cheguemos, então também neurocientífica
e já não apenas literariamente, a uma consciência ponderativa, decisória, e
eficaz ou causadora.
Post scriptum – Esta é a minha primeira
crónica aqui após o falecimento do Eng. Luís G. Brandão. Que sempre manteve
vivo o interesse pelas ciências e a integração delas na cultura geral – tantas
foram as observações que trocámos sobre isso desde que fui colaborador do
jornal de que o pai dele fora assinante (o antigo O Primeiro de Janeiro)! Que entretanto nunca descurou a liberdade
de consciência e a responsabilidade que lhe corresponde – foi ele que há muitos
anos me emprestou a biografia de Churchill, cuja leitura me confirmou o
primeiro-ministro inglês como uma das referências maiores da minha atual participação
na “Coluna Liberal”. E foi dele que recebi o comentário mais simples e mais
certeiro a Rufina, sobre “o sentido e
significado da existência”. Esta crónica fica assim dedicada à memória de Luís
Guilherme Cogumbreiro Ivens Brandão. Com a amizade, e o reconhecimento, que a
saudade fará perdurar.
in: Correio dos Açores, 16/06/2017
Um comentário muito rápido: uma pessoa pode perder-se no pântano da neurociência e nunca mais voltar a ser vista. Claramente que há muito a explicar sobre o que é a consciência e como ela se forma e se molda nas fundações bioquímicas, celulares e anatómicas do corpo humano. Sabe-se como certas hormonas afetam o nosso estado de espírito e mesmo a nossa personalidade. Basta pensar na doença de Alzheimer para compreender a fragilidade dessa espuma neurológica a que chamamos consciência. Mas esta complexidade não pode servir para negar o livre arbítrio, mesmo reconhecendo as suas limitações e influências.
ResponderEliminarHahaha... gostei especialmente da sua 1ª frase! Por certo citá-la-ei quando no futuro voltar a abordar as neurociências, em particular na sua relação ao livre-arbítrio. Se, entretanto, o José Manuel tiver ocasião para me indicar ao menos alguma pista da argumentação que justifique que a complexidade delas não serve para negar aquela condição que gostamos (!) de nos atribuir, terei muito interesse em considerar tais argumentos. Até lá, fica apenas o gosto.
EliminarPor agora, porém, decido (?!) antes dar um pulo até ao Pesqueiro...
Por falar em mergulhos no mar, ao que julgo saber a área de investigação do José Manuel é a dos peixes e mamíferos marinhos. Tomemos o caso da escolha i) da direção, e ii) do momento de inflexão do movimento dos cardumes – tenho ideia que este é um caso tratado por autores da auto-organização e da teoria do caos que Marques-Teixeira e F. Barbosa mencionam. Corrija-me se me engano: nesse âmbito teórico, pretende-se que as escolhas (i) e (ii) são feitas 1º) em correspondência a quaisquer perceções dos peixes no limiar do cardume – que as interpretam como estão geneticamente programados a fazê-lo; 2º) interpretação que espoleta um movimento correspondente desses animais; 3º) o qual é percecionado pelos peixes contíguos, que estão programados para imediatamente lhes ajustarem os respetivos movimentos… nº) até os peixes no outro lado do cardume também se lhes ajustarem. Dando a impressão, a olho nu, de que o conjunto (também bandos de pássaros, etc.) o faz quase que simultaneamente.
ResponderEliminarEsta explicação me parece configurar uma causalidade “descendente” do meio sobre o cérebro e as respetivas ordens motoras de cada indivíduo. Há aqui tanta liberdade quanta a que há numa jura de amor e pedido de casamento que, afinal, seja causada “ascendentemente” pela troca neuronal de uns iões de potássio (houvesse outra de sódio uns milímetros ao lado, e ele “escolheria” antes torcer o pescoço à rapariga).
Coloquemos então a hipótese de uma “mente”. Esta pode ser autónoma do cérebro – e assim o amor não se reduzir a iões de potássio – em sentido forte e em sentido fraco: no 1º, funcionando e assim existindo mesmo quando já não há cérebro que lhe corresponda (deixemos esta via para alguns teólogos, literatos e filósofos – os quais têm de voltar com Descartes à glândula pineal…). No sentido fraco, a qualquer processo mental corresponderá um determinado processo neuronal; mas o comando destes processos não se encontrará nas leis físico-químicas, e sim no plano meramente informacional ou semiótico que se verifica no nível mental. Ou seja, será a ponderação entre os significados de “amor”, “casamento”… que determinarão ou causarão o dito das palavras que constituem o pedido de casamento, e o instante em que elas são proferidas; e não quaisquer condições eletroquímicas e fisiológicas entre os neurónios, os quais, no entanto, permitem fisicamente o desenvolvimento do anterior processo semiótico, bem como depois ativam os músculos que produzirão o som…
Desconfio que uma tal teoria mental terá de se articular com os pressupostos, ou implicações metafísicas dos sistemas dinâmicos não-lineares que o José Manuel porventura usa em modelos de dinâmicas de populações… Mas creio que para blogger já estou a ir longe de mais!
Uma última palavra de novo sobre a “decisão” do comportamento dos peixes: sabe se a explicação do que se passa nos respetivos cérebros, nas escolhas (i) e (ii) atrás discriminadas, pode ser constituída como uma variante de uma teoria mais ampla da vontade que permita uma outra variante, esta em que os processos cerebrais sejam comandados por processos semióticos autónomos, a qual seria então a variante desenvolvida pelo homo sapiens? Ou aquela explicação é suficiente – perguntaria especialmente em (ii) – de modo que, ainda que não exclua, pelo menos dispense esta sua (mais complicada) constituição como tal variante?
Se este alargamento teórico não for possível, me parece que ficaremos numa de duas: ou voltamos ao dualismo cartesiano, ou abdicamos da pretensão a um livre-arbítrio.
(E, como o primeiro não é teoricamente funcional, as minhas costelas liberais, e a sua que também o é, terão de ceder o passo às suas outras costelas socialistas… ou às costelas conservadoras de outras pessoas).
Vou perguntar o mesmo que na "última palavra" do comentário anterior, mas agora em geral (ao invés de partir de qualquer caso como o dos cardumes): que estatuto epistemológico cabe à recente biosemiótica? - Isto é: o que quer que se signifique por "ciência", e em particular "ciência natural", abrange esse conhecimento que supõe que todo o ser vivo interage mediante signos?... Ou tal disciplina é apenas mais uma parlapatice do new age?
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