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Da incineradora (e outras obras) – Duas formas válidas de argumentar disjuntivamente

Suponhamos que um pequeno conjunto de pessoas, mais ou menos conhecido, decide – por motivos que ficam à imaginação do leitor – convencer a restante população desta ilha que será bom construir aqui, digamos, uma incineradora de resíduos sólidos urbanos (poderíamos exemplificar com outros empreendimentos com impacto público). E que, para o efeito, um dos elementos desse conjunto vem a terreiro, digamos, numa sessão de esclarecimento na Lagoa, com argumentos como o seguinte:

Por um "silogismo disjuntivo"

Ou bem que construímos a incineradora (A) ou bem que não a construímos (B). Se a construirmos (A), então reduzimos o volume atual desses resíduos (A1), criamos dúzia e meia de postos de trabalho (A2)… e, last but not least, trazemos para a região (enfim, para algumas contas bancárias geridas por pessoas daquele conjunto, depois logo se vê) umas dezenas de milhões de euros da UE (An). Portanto – aceitando como evidente a bondade pelo menos de alguma consequência desta série – devemos optar pela construção da incineradora (A).
Convencido? Então imagine que vai queixar-se de dores de cabeça a um médico, e que este argumenta: ou bem que você fica sem a cabeça (A), ou bem que a mantém (B); se você não tiver cabeça (A), então não terá dores de cabeça (A1); logo – como é este resultado que você pretende – receito-lhe a decapitação como terapia (A).
Ambos os argumentos são instâncias da mesma forma – A ou B, se A então A1 e A2 e… An (sendo bons alguns destes consequentes), logo A. Como qualquer forma lógica, esta é válida se nenhuma instância concreta sua for falsa. Ora, estou em crer que o leitor concordará que só quem tiver perdido a cabeça – não literalmente, quero eu dizer, mas como metáfora da perda daquela função que normalmente se espera da cabeça e que se chama “raciocinar” – é que poderá aceitar aquele primeiro argumento em prol da incineradora (e outros semelhantes).
Designadamente, o leitor perguntará ao porta-voz do tal grupo se não haverá contras na solução da incineradora. E quais serão as vantagens e inconvenientes das suas alternativas.
Tal como se dirigirá a outra médica, pedindo uma segunda opinião que porventura lhe permita evitar o contra daquela primeira terapia cujo pró seria o imediato e definitivo fim da dor de cabeça. Mas suponhamos que esta técnica argumentava assim:

Por uma "eliminação da disjunção"

Você tem uma de duas soluções. Ou vai tomando essas cápsulas de cada vez que tiver dores, estas ficarão mais fracas, e quando voltarem tome o remédio outra vez… mas não abuse se não dá cabo do estômago, e somará dores de barriga às que já tem (comecemos agora por B). Ou faz um tratamento novo por radiações eletromagnéticas, o qual tem curado rápida e definitivamente as dores em 100% dos casos… apenas em 0,01% tem causado cancro no cérebro (A). Ora, diz ela, 100% é muito mais do que 0,01% (A’)! Portanto não há que recear a solução A.
Pois – responderá você desconsolado – o problema é a gravidade (A’’) desta solução…
Mutatis mutandis, se além das dores de cabeça essa senhora investigasse efeitos toxicológicos da incineração de resíduos sólidos urbanos, e por isso também tivesse sido convidada para a referida sessão de esclarecimento, dificilmente alguém cujo cérebro (metaforicamente) ainda não esteja afetado pela doença ficaria convencido quando ela assumisse como única premissa a reduzida probabilidade, e assim a possibilidade (A’), de danos cuja gravidade (A’’) a oradora – como nós atrás sobre motivos confessáveis ou não – deixaria à imaginação dos auditores. Para daí concluir diretamente que “não há razões para temer a incineração nos Açores” (A).
Um economista clássico – que presume não haver almoços grátis – diria que esta senhora tropeçou ao longo do processo de “escolha do almoço”. O qual requer sempre ao menos dois passos, e muitas vezes três:
1) Analisam-se os elementos ou fatores de cada alternativa, e eventualmente as respetivas consequências previsíveis; 2) reconhecem-se os valores relevantes no caso – ex. da incineradora: ambientais ou de saúde pública, económicos… – e aplicam-se a cada fator (eventualmente às respetivas consequências). Se num prato da balança os prós suplantarem claramente os contras, e o inverso no outro prato, a questão está resolvida a favor do primeiro.
Quando, porém, não acontece um desequilíbrio claro na balança, num passo 3) temos que hierarquizar os valores em causa. Isto é, determinar aquele que respeitaremos primeiro.
Por exemplo, se num almoço tiver que escolher entre peixe (A) ou carne (B), e segundo o valor do prazer, por hipótese, o primeiro prato ganhar (A’) mas perder segundo o valor do preço (A’’), e o inverso para o prato de carne (B’ e B’’), fico com um empate técnico após o segundo passo do processo de escolha. Tenho então de dar outro passo, e determinar se o valor mais relevante (= “mais valioso”?… julgo que a validade do 3º passo depende desta questão e o que ela acarreta, mas tenhamos confiança que os filósofos lhe conseguirão responder validamente, e decidamos já se) é o prazer ou a poupança.
Se nos orientarmos pelo primeiro valor, obtemos que A’ (avaliação positiva do sabor do peixe) é mais relevante do que A’’ (avaliação negativa do seu preço). E que B’ (avaliação negativa do sabor da carne) pesa mais* do que B’’ (avaliação positiva da poupança assim possível). Ou inversamente se privilegiarmos o segundo valor. Só após este terceiro passo (continuando a confiar na sua validade…) estaremos justificados em preferir um dos dois pratos.
Ou justificados em afirmar seja que não há razão para temer a incineração – uma vez que, racionalmente, na hierarquia entre os valores da ambição, ou da produção… e da segurança, tenhamos assumido e justificado (!) o privilégio dos primeiros. Seja que temos razão para a temer – se em troca tivermos privilegiado o valor da segurança em detrimento dos outros.
Tudo isso espremido, o sumo é este:
Se o primeiro arguente quiser inferir validamente um disjunto mediante a consideração apenas de um dos termos da disjunção inicial, tem de cumprir a regra derivada que os lógicos chamam “silogismo disjuntivo” – A ou B, não-B, logo A. Ou seja, é pela negação absoluta de B que se infere A (uma vez assumido na primeira premissa que pelo menos um dos dois disjuntos será verdadeiro), e nunca por um mero elenco de prós desta última alternativa.
Se a segunda arguente quiser considerar todos os disjuntos dados – uma vez que não possa aplicar a regra inferencial básica “eliminação da disjunção”, que aqui fica para as aulas de lógica por não me parecer que seja aplicável às alternativas da dor de cabeça, e da incineradora, dada a diversidade das respetivas consequências – compromete-se pelo menos com o segundo passo da “escolha do almoço”. No qual trabalhará com valores, os quais já não se encontram nos tubos de ensaio de quaisquer investigações químicas. Se não mesmo terá que justificar uma hierarquia de valores, avançando o derradeiro passo daquele processo.

in: Correio dos Açores, 04/04/2017

* (na 1ª versão: "menos")

Miguel Soares de Albergaria miguelsoaresdealbergaria@gmail.com

Anexos11:06 (há 1 hora)
para Correio
Bom dia
Peço desculpa, mas acabei de reparar que cometi um erro lógico num dos exemplos em que tentei... denunciar erros lógicos!
Retifiquei a palavra que o causava e envio o texto corrigido. Se ainda for a tempo, peço naturalmente que publiquem esta versão. Se já não for a tempo, paciência... talvez a descoberta do erro por parte de algum leitor mais atento seja até mais estimulante para esse leitor!
Bom fim de semana
Miguel S. Albergaria

Comentários

  1. Sempre gostei de Filosofia, e acho que a proposta de Platão de um rei filósofo tem aspetos positivos. Bem-hajam os filósofos que nos ajudam a limpar a areia que nos atiram para os olhos!

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    1. Obrigado pelo comentário.
      Em relação a uma série de projetos públicos, de facto são demasiadas as vezes em que são feitos no meio de tempestades de areia pelos ares!
      Já quanto à capacidade dos filósofos para a soprarem para longe não sou tão otimista... a começar nos castelos de areia que (Popper denunciou) costumam ser levantados pelos platónicos. Mas, cada uns ajudando a tirar areia dos olhos dos outros, a maior parte daqueles projetos poderão ficar à vista.
      Depois, resta que cidadãos suficientes se disponham a agir em conformidade a vistas que, na sua limpeza, frequentemente não vêm de encontro aos sonhos...

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  2. Argumentar é um grande e contagiante desafio. O nosso problema é que estamos perante um muro de factos consumados, de certezas radicais, de crenças, de proto-milagres. Aí só funciona uma arma muito pouco usada entre nós que é a do ridículo. Há uma outra que é a do chuto no cu, mas ainda não sei onde se compram munições para esse desafio. Ando a tentar fazê-las na garagem. Estão com bom aspecto.

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    1. Ou como tenho ideia de dizer uma personagem de Woody Allen, "a única maneira de argumentar com um nazi é dar-lhe com um tijolo na cabeça". Mas então, como dizia o Sensei Kimeda, há que entrar primeiro e em força, depois logo se vê.
      Quando não se verificam as condições prévias da prática argumentativa - cada parte dispor-se a escutar a outra, as decisões não estarem tomadas à partida... - entre o ridículo ou o tijolo a as suas munições, aposto que a 2ª via será mais eficaz!

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