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A sala que só tinha largura, e um novo partido em Portugal

Imagine o leitor que vai a casa de alguém, e que na sala de estar encontra o sofá encostado a uma parede; ao lado, junto à mesma parede, está uma pequena mesa; e ainda ao lado nessa parede, um televisor no chão. Os três objetos virados para o resto da sala, vazio.
Não resistindo à curiosidade, pergunta ao anfitrião: Porque é que não pões o televisor em cima da mesa, e o sofá à frente de ambos?
Como é que isso é possível – diz ele perplexo – se ao longo do rodapé daquela parede apenas tenho lugares ao lado uns dos outros? Mas qual é a corrente que te prende apenas à largura da sala?! – exclama o leitor – Basta que a essa dimensão acrescentes a da altura, e já contas com as posições em-cima-de, ou por-baixo-de. Acrescenta ainda a da profundidade, e logo surge a posição à-frente-de.
Os portugueses têm estado com os partidos políticos, desde 1974, aproximadamente como o dono dessa casa com os seus móveis.
Assim, uns dizem: vota em mim, que eu é que sei a melhor maneira para ti de gastarmos metade do teu dinheiro, mas dou-te liberdade de casares com quem quiseres. E outros dizem: vota em mim, que eu é que sei com que tipo de pessoas é bom que te cases, mas dou-te liberdade de gastares como entenderes (um pouco!) mais de metade do teu dinheiro.
Temos posto os primeiros à esquerda da nossa sala política, e os segundos à direita. Entretanto, umas poucas vozes isoladas às vezes soltavam: se pudesses votar em mim e assim escolhesses, deixar-te-ia pelo menos dois terços do teu dinheiro para gastares como entendesses, cortando em troca numa série de subsídios, etc. E nunca diria saber melhor do que tu com quem deves casar. Sempre foram tão poucas essas vozes, tão destituídas de megafones e de jornais, que a restante maioria pôde não as colocar em qualquer sítio da sala política portuguesa.
Mas, agora, três movimentos estão em curso para a formação de algum partido que venha enfim institucionalizar essa defesa prioritária da liberdade. São eles os “Democratas”, o “L21”, e a “Iniciativa Liberal”.
Deverá um tal partido ser colocado ao centro? – como propôs José Adelino Maltez. Mas como, se os da direita e da esquerda é que começam por se aproximar entre si ao presumirem que sabem melhor do que nós como havemos de viver, e apenas discutem em que parte das nossas vidas é que mandarão? Diferentemente de ambos, os liberais não pretendem saber melhor do que ninguém como é que cada qual deve levar a sua vida.
 Sobre essa identificação do novo partido, poderão retorquir os que têm estado à esquerda: quem mais se aproxima são os liberais e os da direita! Pois os primeiros, se defendem a liberdade, também aceitam as diferenças causadas pelas diversas escolhas. Tal como os conservadores que aceitam que umas pessoas vivam com mais, ou melhor, que outras. Já nós entramos pelas vidas dentro para as tornarmos tão iguais quanto possível!
Mas logo à direita reclamarão: não, eles é que se aproximam entre si! Pois quem aceita que cada um escolha o que fazer da sua vida aceita que as coisas mudem, tal como os da esquerda querem que elas mudem. Já nós entramos pelas vidas dentro para proibir quaisquer mudanças que ponham em perigo a segurança do que conhecemos no passado!
Bom, diremos nós, os liberais, que desde o séc. XVII afinal temos sido os responsáveis pelas regras desse jogo chamado “democracia” – 1 mulher/homem = 1 voto livre, manda quem os tiver em maior número, mas manda no respeito pelas minorias – a coisa resolve-se como na visita ao homem cuja sala só tinha largura: tomem-se três dimensões em vez de uma só.
Uma dimensão mede o valor da segurança. Nela se distinguem os conservadores, seja em matérias fiscais e orçamentais, seja sobre casamentos e outras questões de costumes.
Outra mede o valor da igualdade. Que as políticas socialistas privilegiarão em qualquer área das nossas vidas.
E outra mede o valor da liberdade individual. Que os liberais se propõem vir agora incrementar em Portugal.
Depois, liberalmente – no tal jogo “democrático” – cada um que escolha o seu lugar nessa nova sala triangular. E intervenha, na humildade do pequeníssimo poderzinho que a cada um de nós cabe, a favor da implementação daquele que julgar ser o melhor tipo de sociedade.

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