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A ideologia portuguesa e a regra modus tollens (julh. 2013)

Avaliemos, logicamente, o discurso ideológico português ao longo das últimas três décadas. Nomeadamente aplicando a regra referida no título. A qual, uma vez que saibamos que uma proposição (chamemos-lhe P) implica uma outra (Q) – em linguagem lógica: se P então Q – e que essa última é falsa (não-Q), nos permite deduzir que também a primeira proposição será falsa (não-P).
1.1.  O §14 da Declaração de Princípios da Internacional Socialista estabelece que os membros desta associação ideológica se comprometem a garantir “a igualdade de direitos e oportunidades”. Na linguagem rigorosa do cálculo de predicados, dir-se-á (simplificadamente) que qualquer coisa que seja um país, se for social-democrata (P), então tende a ser igualitário (Q). Pois bem, os gráficos 37.2 e 37.3 de A. Mateus (coord.), 25 Anos de Portugal Europeu (disponível em PDF), revelam que persistimos como um dos países mais desiguais (não-Q) dos 27 países da UE. Logo, entre estes nossos pares, Portugal tem-se mantido como não social-democrata (não-P).
1.2.  O §3 da Declaração de Bruxelas da Internacional Liberal estabelece que os membros desta última confiam “num sistema económico que respeita a iniciativa privada, o espírito empreendedor e a responsabilidade”, em oposição “às soluções que colocam toda a economia nacional nas mãos do Estado”. Em linguagem lógica: se Portugal se tem mantido como liberal (P), então o seu sistema económico privilegia a iniciativa privada em detrimento da pública (Q). No entanto, os gráficos 22.2 e 22.3 de Mateus, op. cit., revelam que o sector empresarial do Estado português tem tido um peso na economia nacional maior do que a média na UE-27 (não-Q). Logo, no contexto europeu, Portugal persiste como eminentemente não liberal (não-P).
1.3.  Da mesma forma, se Portugal tem sido um país eminentemente conservador (P), então mantém a primordialidade do sector primário, e porventura de uma indústria de mão-de-obra intensiva, além de preservar a estrutura tradicional da família… (Q). Mas os gráficos 7.1 e 7.2 de Mateus, op. cit., revelam uma enorme redução do peso económico dos sectores primário e secundário, e um aumento do terciário mesmo acima da média da UE-27. Enquanto, socialmente, nos gráficos 31.7 e 31.8 passámos a ocupar lugares cimeiros na redução de casamentos e no número de divórcios, nos nascimentos fora do casamento… (não-Q). Logo, na base de tais dados, Portugal não tem sido eminentemente conservador (não-P).
2.        A conjunção das três conclusões anteriores nega o consequente (não-Q) da seguinte condicional: se Portugal é um país ocidental, politicamente contemporâneo, e democrático (P), então – segundo autores como A. Heywood (Political Ideologies) – escolher-nos-emos ideologicamente entre o socialismo, o liberalismo, e o conservadorismo (Q). Logo, Portugal não será politicamente um país ocidental, e contemporâneo, e democrático (não-P). Isto é, na base das informações apontadas e segundo a regra modus tollens, pelo menos uma de três afirmações será verdadeira: não somos politicamente ocidentais; ou não somos politicamente contemporâneos; ou não somos democráticos.
Ora bem, podem-se usar conceitos internacionais mas dando-lhes, à socapa (!), algum outro sentido. E também se pode romper com as regras lógicas! Pela minha parte consigo fazer porém apenas uma avaliação de uma e outra destas possibilidades: assim se constitui um modo tolo de pensar e de falar. De resto, exuberantemente exemplificado ainda ao longo da semana passada.

in: Açoriano Oriental, 10/07/2013 - série "Novas conferências do Casino", em desenvolvimento do ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos.

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