Avaliemos, logicamente, o
discurso ideológico português ao longo das últimas três décadas. Nomeadamente
aplicando a regra referida no título. A qual, uma vez que saibamos que uma
proposição (chamemos-lhe P) implica
uma outra (Q) – em linguagem lógica:
se P então Q – e que essa última é falsa (não-Q),
nos permite deduzir que também a primeira proposição será falsa (não-P).
1.1.
O §14 da Declaração de Princípios da Internacional Socialista estabelece
que os membros desta associação ideológica se comprometem a garantir “a igualdade
de direitos e oportunidades”. Na linguagem rigorosa do cálculo de predicados,
dir-se-á (simplificadamente) que qualquer coisa que seja um país, se for
social-democrata (P), então tende a
ser igualitário (Q). Pois bem, os
gráficos 37.2 e 37.3 de A. Mateus (coord.), 25
Anos de Portugal Europeu (disponível em PDF), revelam que persistimos como
um dos países mais desiguais (não-Q)
dos 27 países da UE. Logo, entre estes nossos pares, Portugal tem-se mantido
como não social-democrata (não-P).
1.2.
O §3 da Declaração de Bruxelas da Internacional Liberal estabelece que os
membros desta última confiam “num sistema económico que respeita a iniciativa
privada, o espírito empreendedor e a responsabilidade”, em oposição “às
soluções que colocam toda a economia nacional nas mãos do Estado”. Em linguagem
lógica: se Portugal se tem mantido como liberal (P), então o seu sistema económico privilegia a iniciativa privada
em detrimento da pública (Q). No
entanto, os gráficos 22.2 e 22.3 de Mateus, op.
cit., revelam que o sector empresarial do Estado português tem tido um peso
na economia nacional maior do que a média na UE-27 (não-Q). Logo, no contexto europeu, Portugal persiste como
eminentemente não liberal (não-P).
1.3.
Da mesma forma, se Portugal tem sido um país eminentemente conservador (P), então mantém a primordialidade do
sector primário, e porventura de uma indústria de mão-de-obra intensiva, além
de preservar a estrutura tradicional da família… (Q). Mas os gráficos 7.1 e 7.2 de Mateus, op. cit., revelam uma enorme redução do peso económico dos sectores
primário e secundário, e um aumento do terciário mesmo acima da média da UE-27.
Enquanto, socialmente, nos gráficos 31.7 e 31.8 passámos a ocupar lugares
cimeiros na redução de casamentos e no número de divórcios, nos nascimentos
fora do casamento… (não-Q). Logo, na
base de tais dados, Portugal não tem sido eminentemente conservador (não-P).
2.
A conjunção das três conclusões anteriores nega o consequente (não-Q) da seguinte condicional: se
Portugal é um país ocidental, politicamente contemporâneo, e democrático (P), então – segundo autores como A.
Heywood (Political Ideologies) –
escolher-nos-emos ideologicamente entre o socialismo, o liberalismo, e o
conservadorismo (Q). Logo, Portugal
não será politicamente um país ocidental, e contemporâneo, e democrático (não-P). Isto é, na base das informações
apontadas e segundo a regra modus tollens,
pelo menos uma de três afirmações será verdadeira: não somos politicamente
ocidentais; ou não somos politicamente contemporâneos; ou não somos
democráticos.
Ora bem, podem-se
usar conceitos internacionais mas dando-lhes, à socapa (!), algum outro
sentido. E também se pode romper com as regras lógicas! Pela minha parte
consigo fazer porém apenas uma avaliação de uma e outra destas possibilidades:
assim se constitui um modo tolo de
pensar e de falar. De resto, exuberantemente exemplificado ainda ao longo da
semana passada.
in: Açoriano Oriental, 10/07/2013 - série "Novas conferências do Casino", em desenvolvimento do ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos.
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