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"Não há milagres" - o caso Afonso Chaves

Em tempo de “pós-verdade”, de “factos alternativos”, todas as “narrativas” se equivalem.
Assim por exemplo, de um lado, temos o papa Calisto III a decretar, em 1456, que a oração Pai-nosso incluísse a expressão: “livrai-nos, Senhor, do mal, do turco e do cometa”. E, à cautela, excomungou este último como instrumento do diabo.
Numa narrativa que assume o pressuposto – de origem pagã! – de uma causalidade dos astros sobre as disposições humanas. E que estabelece ingenuamente (i.e. sem fundamentação crítica) relações entre fenómenos por uma sua mera contiguidade, como, temporalmente, a simultaneidade entre o cerco de Maomé II a Belgrado após conquistar Constantinopla e uma bolinha brilhante deixando atrás de si um risco luminoso no céu.

Um exemplo, em S. Miguel, contra a "pós-verdade"!

De outro lado, na passagem do séc. XVII para o séc. XVIII, temos Edmond Halley a atender antes ao registo rigoroso, desde 467 a.C., da repetição a cada 75 anos de um fenómeno celeste em tudo semelhante. E a aplicar a essas descrições fórmulas matemáticas capazes de determinar órbitas. O que lhe permitiu identificar esse cometa – que então recebeu o nome do astrónomo inglês – prevendo que a sua próxima passagem pela Terra ocorreria em 1758. Como se verificou.
Cor. Francisco Afonso Chaves
Tomando partido entre esses dois lados, a 28 de abril de 1910, na sua comunicação no ciclo de Conferências do Ateneu Comercial de Ponta Delgada[1], o então tenente-coronel Afonso Chaves[2] julgou oportuno denunciar toda a sorte de profetas do fim do mundo, que também por aqui anunciavam este último para o mês seguinte, em virtude da passagem do cometa de Halley. Ou quando muito se salvariam aqueles que possuíssem os “guarda-chuvas anticometa”, as pílulas e máscaras-de-gaz contra o cianogénio… que em diversas paragens logo houve quem pusesse à venda.
Afonso Chaves à época da sua fixação em S. Miguel
O meteorologista e naturalista micaelense (nascido em Lisboa, 1857) começou a sua denúncia pelo reconhecimento lógico de que “o encontro de um cometa com a Terra póde succeder chocando esta com o nucleo do cometa, ou atravessando a sua cauda. O primeiro encontro parece que deve ser perigoso, se é que o nucleo é formado por blocos solidos” (op. cit.: 70, 71).
Depois – em conformidade aos processos de cálculo a que alude ao dizer “actualmente a Astronomia só fornece elementos para se conhecer a orbita dos cometas” – descartou a primeira possibilidade de encontro: “No caso actual não tem mesmo importancia a composição do nucleo do cometa de Halley. Tal nucleo de 18 para 19 de Maio estará entre a Terra e o Sol, a 128 milhões de kilometros d’este, e a cerca de 23 milhões de kilometros da Terra, e, como já indiquei, o maior nucleo cometario observado nem a cincoenta mil kilometros chegava".
Em seguida, estimou a probabilidade de encontro entre o nosso planeta e a cauda do cometa: “visto [o Sol] exercer uma acção repulsiva sobre os gazes que formam a cabeça do cometa, serão elles prolongados para o lado opposto ao Sol formando a cauda que é provavel envolva a Terra, pois é de esperar que tenha mais de 23 milhões de kilometros de extensão”.
Nas páginas consequentes, encontramos o seu reconhecimento de que “foi por meio [da analyse espectral da luz dos cometas] que se soube haver cyanogenio na cauda do cometa de Halley. Infelizmente tal processo não nos indica a quantidade, a proporção, a combinação na qual se encontram os elementos por ella revelados. (…) Mas pensemos o peor, isto é, que [a cauda do cometa] envolve o nosso planeta, e é rica em cyanogenio.”
Aplicando então os processos de medição da densidade desses gases e da atmosfera do nosso planeta – que estabelecem ser a segunda muitíssimo maior do que a primeira – pôde concluir: “Portanto se a Terra atravessar a cauda do cometa de Halley fal-o-ha como se um projectil de ferro animado com uma velocidade superior a 70 kilometros por segundo atravessásse a atmosphera terrestre! Só na superficie de tal projectil (e nós n’esta comparação estamos bem para dentro d’ella) é que se poderia sentir o efeito de tal passagem.”
A argumentação de Afonso Chaves é um exemplo acabado do rigor lógico, do recurso a processos verificáveis de mensuração, do cálculo de probabilidades… e da humildade perante o que se não sabe por mais que fosse desejável sabê-lo, que caraterizam o conhecimento científico.
O tipo de conhecimento que frequentemente tem tido um sucesso na explicação do mundo que nenhum outro tipo de conhecimento iguala – ex. sobre a possibilidade de se sobreviver a maio de 1910 sem um guarda-chuva anticometa. E cujos corpos de conhecimento, a despeito de algumas pontuais revisões profundas, na sua maior parte parecem progredir numa adição de novos conhecimentos parcelares a muitos que se mantêm do passado – ex. a progressão da balística, desde a artilharia usada no cerco otomano a Belgrado até aos atuais mísseis intercontinentais.
Reconhecendo os factos históricos desse frequente sucesso, e dessa razoável progressividade, não poderemos deixar o discurso científico apenas como mais uma "narrativa", paralela a benzeduras contra o belzebu e a anúncios de pílulas anticianogénio.
           A todos quantos, nestas ilhas, nos filiamos na tradição do cor. Afonso Chaves, cabe pois cuidar da constituição, e do exercício do conhecimento de tipo científico – nas ocasiões em que este é apropriado, que só um tolo se deslocaria a um laboratório para aferir se a sopa da véspera estará azeda, etc.

Realismo vs. construtivismo

Pois bem, sobre aquela constituição, logo ao senso comum ocorre um argumento simples: se tamanha funcionalidade, e mesmo a progressividade que se reconhece ao conhecimento científico ocorrerem por sorte, isto será praticamente um milagre; mas não há tais milagres; logo não será por mera sorte. Resta a hipótese de que exista uma realidade condicionando os nossos conhecimentos, quebrando os que se lhe não adequam, e o conhecimento científico terá o poder de nos aproximar dela.
Por sinal, a argumentação lógica em geral, e a adoção da simplicidade como um dos valores de discriminação entre explicações teóricas alternativas, encontram-se entre as propriedades nucleares do conhecimento científico. Pelo que o argumento – designado na literatura epistemológica por – “não há milagres”, sustentando que esse tipo de conhecimento nos aproxima de uma realidade, constituirá ele próprio um exercício científico.
Nesta série de crónicas já várias vezes registei a minha filiação nesta resposta realista à questão da natureza do conhecimento científico – contra a tese construtivista ou idealista de que restamos sempre confinados a ideias que projetamos (cf. “A ‘indução pessimista' – o caso Mont’Alverne de Sequeira”, Correio dos Açores, 28/01/2017). Não fecharei o texto de hoje porém sem apontar duas objeções que se nos colocam:
a)      Como enfatizei nessa crónica que aqui trouxe o argumento contrário, o facto histórico da substituição de teses antigas pode sugerir que também as atuais, e as futuras, serão provavelmente substituídas – restando nós assim imersos nas ideias que construímos.
b)      O argumento de que não há milagres supõe, como qualquer argumento, a necessidade lógica das inferências formalmente válidas. Ora é precisamente tal necessidade que é negada pela assunção antes da sorte, dos milagres… Pelo que aquele argumento parece já pressupor o erro a cuja denúncia pretende chegar – numa falácia da inclusão da conclusão nas premissas.
Duas objeções, entre outras, a não ignorar por qualquer realista que, acima desta sua posição, se disponha a viver e morrer como um homem honrado.


[1] Francisco Afonso Chaves, “A previsão do tempo, e a dos tremores de terra. A passagem da cauda do cometa de Halley pela terra”, in: F. Affonso Chaves e F. Cogumbreiro (ed.), Conferencias realizadas durante o anno de 1908 a 1912 no Atheneu Commercial de Ponta Delgada, Ponta Delgada: Typ. do Diário dos Açores, 1912, pp. 62-73.
[2] Cuja fotografia e anúncio de exposição em anexo (no Museu Carlos Machado a 23 de março), bem como aliás, e principalmente, todo o apoio que sempre expressou a estas minhas iniciativazinhas em prol da cultura científica, agradeço ao sobrinho-bisneto do cor. Afonso Chaves, eng. Luís G. Cogumbreiro Ivens Brandão (por sinal também militar) – bisneto de José de Medeiros Cogumbreiro, o cunhado de Afonso Chaves a quem este último dedicou a sua conferência, dele escrevendo o melhor epitáfio que alguma vez li: “Viveu e morreu como deve viver e morrer um homem honrado!” (op. cit.: 63).



in: Correio dos Açores, 14/02/2017

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