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Grandes pequenos líderes vs. pequenos grandes líderes

Passada uma semana sobre a morte de Mário Soares começa a abrir-se o tempo de uma reflexão menos apaixonada, e menos personalizada, sobre o sentido do seu legado. Num juízo assim sobre o conjunto de decisões e ações nacionais de que o ex-presidente foi, se não um dos primeiros responsáveis, pelo menos um dos seus maiores representantes. Um juízo que se impõe como parte da nossa decisão hoje sobre as ações que concretizarão o melhor futuro coletivo, na base das heranças recebidas.
Partes da história política de Mário Soares estão há muito encerradas – A tese de que um pequeno país europeu poderia segurar um império como nem o Reino Unido e a França tinham podido manter, já não está em discussão. Como já não há a URSS de que pudéssemos vir a ser uma sucursal ibérica. Enquanto a possibilidade de um populismo autocrático, numa deriva da “jangada de pedra” diretamente até à costa venezuelana, ainda não está em questão… embora, à cautela, talvez convenha ir mantendo viva a memória da Fonte Luminosa.
Ao contrário, nenhuma questão política será mais atual do que a da garantia pelo Estado de condições de vida aceitáveis à generalidade da população. Sobre isto, a ação de Mário Soares como líder do PS, deputado e primeiro-ministro… liga-o ao Serviço Nacional de Saúde, ao sistema universal de pensões, à escolarização da população em geral, etc. Depois, como presidente em particular no seu segundo mandato, enfatizou denúncias do atraso das condições de vida de parcelas da população portuguesa, perturbando assim a retórica política do governo de Cavaco Silva.
Não a perturbou porém em alertas equiparáveis por a quota da agricultura no total do valor acrescentado bruto estar em queda, de 1977 a 1993, de 13% para 5%; da quota da indústria, que tinha crescido levemente entre aquele primeiro ano e 1988 de 27% para 30%, em 1993 se encontrar nos 24%. Enquanto, em troca, a quota dos serviços comerciais subia de 40% para 49%, e a da administração pública subia de 11% para 16%. Sempre com a balança comercial negativa.
Enquanto também o país se empenhava, após a adesão à CEE, na produção de estruturas físicas rodoviárias, de saúde, escolares… Não se empenhou porém o presidente a alertar que não é por uma pessoa ter um diploma que terá automaticamente a capacidade lá inscrita. Que não é por estar com saúde que a vai aproveitar em trabalho que pague os cuidados recebidos no SNS, em vez de se estirar na praia. Em cujo caminho pode a nova autoestrada ser mais usada do que no transporte de mercadorias e trabalhadores…
A encruzilhada resultante parece clara: ou uma inflexão desse modelo de desenvolvimento; ou o retorno das más condições de vida; ou o endividamento crescente (isto é, a reserva das boas condições para os avós e metade da vida dos filhos, seguida do abandono destes na outra metade, e dos netos na vida inteira).
A opção seguida é conhecida: enquanto o PIB estagnava, além dos endividamentos de famílias e empresas, a dívida pública portuguesa, em 2000, era de 50,3% do PIB; em 2011, ano em que o governo de José Sócrates pediu e negociou com a troika o resgate financeiro, era de 111,4%. Mas quando, nesses últimos anos, o então presidente Cavaco Silva alertou contra tal escalada, não me lembro (amnésia minha?) que Mário Soares lhe tenha juntado a voz. Em troca, criticou asperamente o governo seguinte que geriu aquele acordo, subindo a dívida pública ainda em 2012, mas estabilizando-a nos três anos seguintes.
Ou seja, Mário Soares é um dos principais responsáveis, ou pelo menos representa a escolha nacional pela estrutura da economia em função da distribuição de riqueza, e do seu enquadramento administrativo, em detrimento da criação sustentável dessa riqueza. E por, quando esta começa a faltar, se passar a consumir uma riqueza que caberá às pessoas futuras produzir (pouco importando, agora, as condições de vida então delas).
O que o coloca (salvo talvez durante o governo que implementou o programa de estabilização do FMI, e que negociou a adesão à CEE) como um dos mais destacados representantes das duas principais “condições do atraso do povo português” (como lhes chamei noutro sítio):
A tendência de assumirmos que o que importa é o que nos apetece, o que se nos afigura justo… Sendo despicienda uma realidade contra a qual se pudessem partir os nossos sonhos.
E uma temporalidade fragmentada em momentos distintos, geradora apenas de expetativas de curtíssimo prazo, sem relações de causalidade ou ao menos de condicionamento que tornem os momentos anteriores responsáveis pela melhoria, ou pela pioria, dos seguintes.
Há quem julga que Mário Soares tinha a perceção da realidade de médio e longo prazo para que estava contribuindo, de modo que a sua falha, para com a geração seguinte, será antes moral. Escuso-me a julgar o homem neste campo. De um lado, porque não tenho informação (nem interesse). De outro, e principalmente, porque, mesmo que assim seja, aqueles que o tomam como símbolo claramente não o fazem num assumido suicídio coletivo. Presumo que apenas se convencem que no presente só há a tratar do que é presente. E que se desejamos, ou é justo que uma vaca voe, então ela voa.
Posto isso, Soares tinha as virtudes pessoais de um grande líder político: a capacidade de isolar uns poucos valores (ex. a liberdade) e noções (ex. um Portugal europeu e atlântico). A inteligência intuitiva sobre que alternativa melhor os cumpriria em cada situação histórica (ex. a opção pela CEE contra muitos pareceres económicos). A coragem social (afrontando desde as elites do Estado Novo aos 93% de inquiridos que o não apoiavam no arranque das presidenciais) e até física (da PIDE à Marinha Grande). A comunicação empática com grandes públicos (ex. a sedução do novo presidente aos eleitores de Freitas do Amaral). E até essa raríssima capacidade de, num país em que “Fulano é uma pessoa de consensos” será o maior elogio, ter sido antes uma pessoa de ruturas (desde com os antigos republicanos na adesão ao PCP, em diante), e manter ainda assim uma extensíssima rede de relações sociais, indispensáveis à atividade política a nível nacional e internacional.
Faltava-lhe a inteligência analítica para uma articulação rigorosa dos conceitos de liberdade negativa e positiva, destes com cada uma das diversas seguranças?… Tanto quanto me apercebo, faltava-lhe. Mas essas articulações são incumbência dos intelectuais, não dos líderes políticos. Ocasionalmente faltava-lhe alguma boa educação e respeito pelas pessoas comuns? Também me parece. Mas isto exige-se a quem connosco convive habitualmente, não a quem apenas vemos nos telejornais ou em alguma ocasião fortuita.
Por essas suas virtudes pessoais, nós, democratas e culturalmente ocidentais – tendo ou não votado nas suas candidaturas pessoais ou partidárias – concordaremos em reforçar a adjetivação “grande” à sua liderança nas opções nacionais pela democracia liberal e representativa, pela Europa e pela NATO.
Mas um pequeno grande líder, acrescentamos aqueles que requeremos que estas opções, bem como qualquer melhoria de condições de vida após a adesão à CEE, tivessem sido, e sejam implementadas de forma sustentável. Não à custa de endividamentos que as comprometam na geração seguinte. Ainda menos à custa de um eventual empurrão dessa geração para alguma “jangada de pedra”, tripulada pelo primeiro caudilho que prometa então o voo de manadas inteiras.
Em particular nós da pequeníssima minoria liberal em que me incluo, a políticos de carreira como Mário Soares preferiríamos um líder “pequeno” desde logo no reconhecimento de que a política é apenas uma das dimensões da vida humana, eventualmente nem a mais importante. Um pequeno líder, ainda, na assunção de que os detentores de cargos políticos são apenas uns dos construtores do país que fazemos, eventualmente não os mais importantes, ainda que sejam os mais visíveis.
Mas um grande pequeno líder político – ou simplesmente um grande líder, dirão os não liberais mas realistas – no seu contributo direto, e persistente, para uma progressiva substituição das condições político-culturais do nosso atraso centenário por condições que, enfim, nos coloquem a par da Irlanda, da Bélgica, da Áustria, da Finlândia… Todos esses países onde tanto as pessoas de dentro, quanto as de fora, almejam viver.

in: Correio dos Açores,13 /01/2017

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