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Para o novo ano, faço votos (desesperançados…) pelo regresso aos anos velhos

Segundo os Dicionários Oxford, a palavra que caraterizou o último ano foi “pós-verdade”. Um adjetivo que significa “relating to or denoting circumstances in which objective facts are less influential in shaping public opinion than appeals to emotion and personal belief” (The Guardian, 15/11/2016). Em Portugal, para designarem os discursos que assim “moldam a opinião pública”, algumas cliques bem-pensantes tinham já adotado em força o substantivo “narrativa”.

"Realidade", "realidade", "realidade"...

O que me relembra o seguinte caso histórico, que descobri numa das minhas solitárias explorações juvenis dos livros esquecidos numa estante na falsa da casa que fora dos meus avós (o tempo, e o mundo, ficavam-me suspensos como os grãos de pó que oscilavam lentamente na faixa de luz doirada que entrava pela janela de uma guarita no telhado…), e de onde muitos anos depois parti numa argumentação sobre a realidade – base de quaisquer “objective facts”:
Em março de 1961 a União dos Povos de Angola lançou uma série de ataques a fazendas e postos administrativos em toda a região dos Dembos (ao norte da então província ultramarina portuguesa). Os ataques foram efetuados por nativos equipados maioritariamente com armas brancas, os quais carregaram sobre colonos e funcionários gritando que os projécteis das armas de fogo destes últimos se tornavam de água (“maza”) face aos amuletos ou rezas dos primeiros. Depois de um sucesso inicial concomitante à surpresa dos ataques, assim que as poucas tropas coloniais disponíveis e algumas milícias civis reagiram (usando as armas de fogo no suposto de que as balas e bombas não dependem de magia…) a região foi pacificada, com muitas baixas entre os nativos. A revolta só foi reiniciada no ano seguinte. Mas com armamento moderno e mediante apropriadas táticas de guerrilha.”
E em rodapé acrescentei “vejam-se as descrições do ataque a Mucaba, mas também a dos habitantes da aldeia de Quibuenda (?) que receberam um bombardeamento aéreo de pé e sem se abrigar, munidos apenas de paus mágicos” (in: Um primeiro reconhecimento do problema do que há).
Nesses combates confrontaram-se dois mundos: um, constituído por objetos que mantêm as respetivas propriedades (metálica, etc.) até sofrerem ações físicas que lhas alterem. O outro, constituído por seres cujas propriedades materiais podem ser alteradas espiritualmente (mediante feitiços, amuletos…). Assim as casas, ruas e pessoas desde Mucaba ao resto do planeta, eram concebidas de modo diferente por cada uma das partes que ali se confrontaram.
Esses dois mundos disputavam, porém, o mesmo espaço. Pois o cumprimento das ações num deles implicava a negação do outro mundo – ex. uma vitória dos indígenas sem baixas, implicava que as balas não mantivessem a consistência desde o disparo até o choque com os corpos, assim como as bombas de Quibuenda (?), etc. (ou uma extraordinária aselhice dos colonos, soldados e aviadores!).
Pelo que esses mundos não eram paralelos, mas sim mutuamente exclusivos.
O reconhecimento, no mundo animista dos indígenas, de que nele restava ou se subordinar ao mundo mecanicista dos ocidentais – mantendo-se a colonização nessa região africana – ou dissolver-se, e importar o que fosse próprio deste outro mundo – pela adoção do armamento e táticas militares deste último – constitui o reconhecimento de uma realidade para além de quaisquer crenças, tradições, discursos e rituais.
Em troca, note-se, o cumprimento dos objetivos portugueses não garante imediatamente a validade da conceção ocidental do mundo: porventura outra conceção ainda das balas, e do mundo, poderia também dar-lhes uma forma funcional.
Mas, pelo menos ao negar certas conceções, a história de confrontos de mundos inclina-nos a favor dos antigos realistas.
Contra, portanto, quaisquer teses desde a da maioria dos filósofos modernos e contemporâneos, que têm sustentado que a identidade dos objetos depende principalmente das estruturas humanas de conhecimento, quando não mesmo das culturas, etc.; até a do senso comum de todos quantos assumem que, quem tem crenças diferentes das que sejam espontâneas, na melhor das hipóteses é excêntrico, na pior ou é bandido ou é doido.

Pelo "novo realismo"

A favor, portanto, da viragem realista que está hoje a ser tentada por autores como os que aqui mencionei nas vésperas do ano da pós-verdade, sobre uma origem não meramente convencional dos valores segundo os quais teremos de enfrentar desafios espantosos como os que as biotecnologias se preparam para nos colocar (v. “O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (2)”).
À saída desse ano, em tempo de todas e mais algumas narrativas, começo então por prever que quem – indivíduos ou países – se mantiver obediente a “appeals to emotion and personal belief” terá um destino comparável ao dos indígenas que, com amuletos ao pescoço, investiram de peito aberto contra carabinas, ou que receberam de pé um bombardeamento.
Posto isso, deixo porém duas notas: uma, reconhecendo que a pós-verdade e a “narrativa” constitui apenas uma caricatura de argumentos válidos – há que o reconhecer – que dominaram as Idades Moderna e Contemporânea, afinal aquelas em que o conhecimento mais evoluiu. Precisamente reconhecendo a “influência” de “factos objetivos” e de raciocínios coerentes, para melhor gerirmos as nossas conceções – das biotecnologias às políticas, etc. – não poderemos pois despachar esses argumentos no mesmo saco daquela outra obediência a apelos e crenças disparatadas.
A outra, notando que essa questão não é distante, nem inusitada, nesta pequena ilha algures entre a Europa e o continente americano. Ao contrário, esteve presente nas entrelinhas das Conferencias no Atheneu Commercial de Ponta Delgada, há pouco mais de um século. Pelo que, nas próximas duas crónicas desta série mensal dedicada à ciência, tecnologia e sociedade, tomarei respetivamente como casos de estudo a história da questão ali tratada por Gil Mont’Alverne de Sequeira, e a comunicação de Afonso Chaves, para abordar a alternativa construtivismo versus realismo em relação ao conhecimento científico.
(Conferencias antigas que por sinal encontrei, décadas mais tarde, noutra subida àquela mesma falsa. Assim vai a vida evoluindo, em espiral, talvez não de todo diferente de uma insustentável dança de grãos de pó suspenso…).
in: Correio dos Açores, 30/12/2016

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