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Ano de natal

O dia mais pequeno do ano é o do solstício de inverno, que ora calha a 21 ora a 22 de dezembro. Mas só por ilusão de ótica se dirá que o terceiro ou quarto dia a seguir, em conformidade, é um dos mais pequenos.
Antes se estende para trás, quando quem o vive tiver cuidado de quem partilhe consigo este dia – qual jardineiro cuidando das plantas do seu jardim. Estende-se até todas as vezes em que deu atenção à palavra ou ao gesto da mulher, e assim agora sabe que perfume ela gostará de receber. Estende-se por todo o tempo em que apoiou o filho na caminhada para a faculdade, incluindo o pagamento de explicações e propinas, quando agora lhe sobra apenas um presente para este filho, além de o abraçar com orgulho. Tal como, ao desejar boas festas a alguns amigos, estes votos o estendem até quando se alegrou com o sucesso de um, e principalmente até ao período em que se manteve junto do outro então caído no lado errado da fortuna.
Mas também quando os amigos lhe retribuem os votos, especialmente o segundo, ele se estende desde o 25º dia do último mês do ano até ao passado inteiro de tais amizades. Ou quando aceita com gosto o livro que o filho lhe oferece, sobre o que ao pai interessa mas de que desistiu em prol do percurso do filho. Ou, quando aprecia o uísque que a mulher lhe veio trazer, se estende até ao primeiro dia em que saíram juntos, e ele pediu exatamente esta marca para beber.
Em cada um desses gestos se abre o passado inteiro que a eles trouxe.
Assim como para diante se estende o dia 25 de dezembro, quando a oferta que nele, além do abraço, sobra para o filho é o compromisso firme de vir a pagar, com o mesmo orgulho, as propinas que faltem ainda para o fim do curso. Quando os votos de feliz natal carregarem a certeza de que, passadas as festas, voltará a partilhar no café a meia hora diária de comentários sobre futebol e política e amizade. Quando, no sorriso com que agradece a bebida à mulher, estiver a intenção de passar um casaco pelos ombros dela a cada seu primeiro arrepio de frio ao anoitecer. E durante esse tempo receber reconhecido os cuidados deles.
Em troca, se nada disso acontece, este dia mirra embora demore a passar. Como tarde de inverno em que a humidade traz o frio para aquém das janelas. Para de baixo das mantas e roupas. Para junto dos ossos. Para dentro do coração.
Tenha porém havido aqueles cuidados, haja essas outras intenções, que o terceiro ou quarto dia depois do solstício de inverno será afinal do tamanho do ano inteiro.
Para dele se dizer, então, que é dia de natal.

texto pedido para (mas publicado depois)
"Suplemento Natal 2016", Correio dos Açores

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