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"Os Últimos Dias da Humanidade" - A raiz desse fim na própria obra de K. Kraus

Faz hoje exactamente 1 semana que o Teatro Nacional São João apresentou a Parte III ("A Última Noite") da 1ª encenação em Portugal da peça Os Últimos Dias da Humanidade, do dramaturgo austríaco Karl Kraus - sobre a vertigem europeia entre o espoletar da Grande Guerra e o prenúncio dos novos tempos após esta última.
A 1ª parte do espetáculo é composta por uma sucessão de pequenas cenas, praticamente sem ordem narrativa nem interligação lógica. Cada uma delas apresenta uma situação pontual - desde um diálogo entre uma dona de casa alemã e outra austríaca (impérios aliados na I G.M.), até uma reunião de psiquiatras para diagnosticarem um refractário à guerra... atravessados por passagens de ardinas anunciando as últimas notícias da frente. Quais peças soltas de um grande mosaico cujos contornos se vão assim paulatinamente precisando ante o espectador.
A 2ª parte fica marcada pela sucessão de meia dúzia de monólogos denunciando, e mesmo teorizando as raízes perversas da guerra - não apenas a de 1914/18, mas da guerra em geral, e de uma condição civilizacional belicista que então se estaria a inaugurar (dando lugar aos "últimos dias da humanidade", ainda hoje - putativamente - os nossos).
Nessa noite, o TNSJ estava parcialmente vazio - apesar dos encómios a essa representação que vinham aparecendo na comunicação social... - e alguns espetadores saíram ao intervalo. Houve também quem praticamente adormecesse. Julgo que foi justo.

De um lado, aquela sucessão final de monólogos num mesmo e longo manifesto viola a regra clássica da dramaturgia "show, don't tell".
Mas, uma vez que o autor assume uma referência direta e geral a um tema (a guerra), e ainda por cima apelando a uma posição teórica e prática (condenação), no reconhecimento pela liberdade crítica dos espetadores deveria então nesse manifesto desenvolver argumentos válidos - conjuntos de enunciados (premissas) cuja articulação, respeitosa das regras de inferência lógica, seja significativa para outro enunciado (a conclusão). Ao contrário, porém, Kraus fica-se por um discurso encantatório pontilhado de metáforas inflamadas, que darão voz aos já convertidos, mas que aos restantes nem é sugestivo - como seria se lhes mostrasse (já me referirei à 1ª parte do espectáculo) - nem é convincente - por força argumentativa.
Depois de algures ao longo da peça terem sido mencionadas as estações ferroviárias, em cada um dos diversos países beligerantes, de onde multidões em festa atiraram flores aos seus rapazes que partiam para esse diferente pic-nic que seria a guerra, e de onde voltariam com o garbo de umas belas cicatrizes após - em todos (!) os lados da guerra - a resolverem a seu contento em poucos meses... as personagens finais apontam o dedo acusador ao conjunto "eles": os grandes capitalistas e industriais que enriqueceram com o fornecimento do material de guerra, e os magnates da comunicação social que enriqueceram com as "últimas da frente", além de para esta última terem empurrado o "material humano" que a alimentasse.
É certo que uma das personagens reconhece que o "demónio" da guerra está para além dos elementos desse conjunto, como o está em relação aos entusiastas nas estações ferroviárias, ou de quem de cada vez decidiu tirar dinheiro da sua algibeira para comprar a última edição anunciada pelos ardinas. Mas logo acrescenta que "eles" estarão mais perto desse "demónio", pelo que é apropriado ficarmo-nos por apontar o dedo acusatório aos capitalistas, industriais e magnates, e contra eles cada um de nós (os tais das estações, comboios, e compras de jornais) "dar um primeiro passo para fora das trincheiras!" (cito de memória).
Pela minha parte - mal resistindo ao enfado da peça e assim provavelmente tendo-me escapado passagens relevantes... - ao ouvi-los nessas suas invectivas, o mosaico que se me começou a delinear foi o de uns certos "camisas castanhas", poucos anos depois, e aliás com entusiástica receção na Áustria que restara do velho império dos Habsburgos, a identificarem enfim esses "eles" como os judeus - afinal, os velhos inimigos infiltrados na Europa! - para darem em seguida o 1º passo no tratamento que desde sempre cabe aos bodes expiatórios.
E essa filiação nazi não será abusiva da parte destes.

Pois, de outro lado da justiça do enjeitamento desta peça de K. Krauss, com a desarticulação narrativa da sucessão de cenas autónomas o autor demitiu-se do grande efeito que, desde Aristóteles, se reconhece ao drama: o de facultar uma catarse aos espetadores, concretamente por lhes apresentar uma organização do magma emocional e mesmo cognitivo das suas vivências, particularmente das conflituosas.
O que resta de tal demissão? Precisamente, de um lado esse magma, do outro o puro poder de lhe instaurar qualquer ordem uma vez que, não a tendo ele mas sendo assim invivivel, qualquer ordem lhe cabe. E a mais própria, a que mais respeita esta condição, será a ordem que exalta um tal poder absolutamente livre de qualquer constrangimento na realidade em que intervém. Um poder do qual o nazismo foi até hoje o maior expoente.
Com Rob Riemen, apontei então aqui, ou aqui, ou aqui... que, muito antes de quaisquer manigâncias capitalistas, é nas opções e obras culturais dos Karls Krausses que se inauguram uns "últimos dias da Humanidade"... mas também que, em opções e obras alternativas, deles nos podemos resgatar.

Em suma: mais do que a perder esses Últimos Dias da Humanidade (contra, pois, quaisquer "Não percam"), urgentemente a enjeitar.

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