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Nobel 2016: uma janela sobre a ciência e a Natureza modernas

Também poderíamos tomar o recente prémio Nobel que distinguiu o isolamento de um estado da Natureza que… não é natural (o plasma), e as expetativas computacionais (quânticas) que isso faculta. Ou até outro destes últimos Nobel que promete avanços nos combates ao cancro, alzheimer… na base de estudos apenas sobre fungos (leveduras). Mas, para reentreabrirmos a janela sobre caraterísticas das ciências modernas que entreabrimos aqui em junho passado na efeméride secular de um artigo de Einstein, tomemos apenas o prémio Nobel de química 2016.
Para o que aos leigos como eu convém começar por recordar o 3º ciclo do ensino básico: chama-se “molécula” ao elemento mais pequeno da matéria que ainda apresente as propriedades que distinguem cada substância (água, hélio…). Em regra esta identidade qualitativa, ou os comportamentos próprios da substância, depende, de um lado, dos tipos de átomos que compõem a molécula (chama-se “átomo” à unidade mais pequena que se encontra espontaneamente na Natureza, diferenciando-se estes pelo número de partículas que por sua vez os compõem); e depende, de outro lado, da forma que a composição desses átomos desenha no espaço.

Da racionalização...

Pois bem, aquele prémio distinguiu agora o desenho, e a sintetização por J.-P. Sauvage, J. Fraser Stoddart e B.L. Feringa, de moléculas cujo comportamento é controlável assim que recebem energia. Isto a uma dimensão mil vezes menor do que um fio de cabelo. Ou seja, esses investigadores produziram máquinas naturais microscópicas que realizarão o trabalho que lhes for próprio onde forem colocadas.
Perspetivam-se assim materiais que, ao sofrerem rachas, recomporão eles próprios a sua superfície. Compostos químicos inativos que sejam injetados nos organismos, para apenas realizarem um determinado trabalho ao receberem energia num determinado órgão, etc. Mal se imaginam todas as aplicações dessa realidade molecular moldada pela razão a uma escala invisível ao olho nu!
Logicamente, esta abordagem àquilo com que deparamos nas nossas vivências – desde as pedras em que tropeçamos, aos nossos pés que nelas batem – começa com a racionalização do real que apontei naquela crónica de junho (“Uma janela de 100 anos sobre a ciência contemporânea – o primado da razão”): as ciências modernas assumem os objetos ou estados de coisas que a razão constrói, ainda que a visão, o tacto… aí mesmo nos apresentem outros objetos ou estados de coisas.
Esta opção vingou com a chamada “Revolução científica” do séc. XVII. Mas constituindo-se essa “razão” como uma faculdade eminentemente operativa. Pois visa isolar os elementos ou fatores de cada fenómeno que sejam relevantes para o comportamento deste último, e as operações entre tais elementos que precisamente resultem nesse comportamento.
Por exemplo, Newton propôs tomar o fenómeno da atração entre os corpos em função de apenas dois parâmetros mensuráveis – as respetivas massas, e a distância entre tais corpos – e das operações de multiplicação dos valores das massas entre si bem como por um terceiro valor constante em quaisquer desses movimentos, de potenciação (ao quadrado) do valor da distância, e enfim de divisão daquele produto por esta potência. Se, portanto, variarmos artificialmente o valor de um dos parâmetros – ex. aumentando a distância entre os corpos em causa – as leis aritméticas permitem-nos calcular o novo valor do fenómeno medido – ex. a aceleração gravitacional desses corpos.
Essa operatividade que carateriza o conhecimento científico moderno abriu todo um mundo de oportunidades tecnocientíficas. Com os seus feitos inimagináveis… e com os seus riscos catastróficos.

...ao desencantamento

Mas, talvez mais imediata, mais intimamente significativo, todo um mundo de vivência da Natureza se fechou assim.
Quaisquer montes, e rios, e florestas, e desertos sugeridos nos poemas desde os antigos romanos (não o De Rerum Natura de Lucrécio!) a Alberto Caeiro, ora bucólicos ora selvagens, assim como nas pinturas românticas e impressionistas, etc., foram varridos para o baú das curiosidades. Substituídos por agregados de partículas que se combinam e recombinam em operações representadas nas equações matemáticas. A Natureza – segundo a teoria corpuscular da matéria que tantos sucessos tem trazido às ciências modernas – deve ser concebida apenas como isto, e apenas pela faculdade que assim a concebe.
Todavia, alguns agregados de átomos de carbono, etc., agregam-se ainda de tal modo que estes agregados – as “células” – alimentam-se, reproduzem-se (i.e. são “vivos”), e ainda de tal modo que alguns destes – as células chamadas “neurónios” – continuam a gerar, com as respetivas correntes eletroquímicas, as vivências “mentais” daqueles ora bucólicos ora selvagens montes, e rios…
Até para melhor os vivenciarmos, não dispensamos entretanto quaisquer curas para o que chamamos “cancro”, “alzheimer”… que obtemos na condição de varrermos precisamente tais objetos de todas essas vivências para o referido baú.
A Revolução científica do séc. XVII deixou-nos assim, ainda que cheios de méritos e poder, em equilíbrio precário sobre a racha da nossa identidade humana. Na proximidade de uma esquizofrenia latente sob todos os nossos comportamentos quotidianos.
O controlo dos riscos de cada vez abertos pelo espantoso poder dessa razão operadora é provavelmente o desafio mais urgente da sociedade contemporânea, desde conceções e valores culturais adequados até as instituições legislativas e judiciais que os implementem. Mas porventura o desafio mais radical será o da reintegração da nossa identidade humana.
Nenhuns para-brisas que recomponham sozinhos as rachas que sofram, nenhumas substâncias químicas que nos poupem ao bisturi dos cirurgiões por fazerem elas os trabalhos internos até aqui possíveis apenas de forma invasiva… chegarão para que vivamos esse admirável mundo novo com a firmeza, e a orientação, próprias à resolução daquela espécie de esquizofrenia.

in: Correio dos Açores, 20/10/2016

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