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O sentido da vida humana - ciência, filosofia e literatura

Para que é que estamos vivos? Qual é o sentido da vida humana? Aliás, terá esta última algum sentido? Se tem, quantos poderão ser, e de que dependem?
Estas perguntas vêm a propósito da mais recente publicação da editora Companhia das Ilhas, inspirada numa história real ocorrida em S. Miguel há pouco mais de um século. Antes de a abordar, porém, cabe reconhecer que aquele conjunto de perguntas constitui a questão mais importante da vida humana apenas sob um pressuposto. Mas é uma questão meramente complementar, até gratuita, sob outro pressuposto.
Entre a indiferença e a importância de qualquer sentido da vida
Com efeito, se nos concebermos como determinados seja de forma inata (geneticamente), seja de forma adquirida (pela educação e experiências pessoais), concebemo-nos como um passageiro que acorde num comboio, sem saber como lá terá entrado, mas agora sem poder escolher para onde os carris e a locomotiva o levarão. Olhar pela janela para reconhecer o sentido da viagem será apenas uma das ocupações possíveis, porventura mais “pesada” do que conversar com outros viajantes ou caçar pokémons.
Mas também nos podemos conceber como “pessoas” – isto é, como seres radicalmente livres; responsáveis pelas consequências das ações que escolhemos; pelas quais (ações escolhidas) vamos construindo a nossa própria identidade; tendo as capacidades de discriminar razoavelmente a verdade/falsidade e o bem/mal; bem como de compreendermos razoavelmente as outras pessoas com quem interagimos.
Neste caso, é certo que para a maioria das escolhas basta o que se joga diretamente nas respetivas situações – ex. que camisa vestirei hoje? Derramo o pacote inteiro de açúcar no café ou apenas metade?… Cada uma dessas decisões dificilmente fará qualquer diferença para a minha vida já na próxima semana.
Mas há algumas escolhas que se afiguram poder marcar a vida inteira – ex. entre uma carreira e um casamento, aproveitar uma oportunidade para enriquecer fraudulentamente ou restar remediado e honesto, etc. Nestas outras encruzilhadas, a melhor alternativa será aquela que melhor cumprirá o sentido da vida… se o houver. E não é fácil escolher sem recorrermos à resposta a esta questão.
A qual, de resto, também fará toda a diferença em situações desde quaisquer balanços da vida – nomeadamente enfrentando a morte – até ao ânimo e orientação em condições extremas – como observaremos em seguida com Viktor E. Frankl.
Nestas páginas, ao longo dos últimos meses aflorei repetidamente algumas argumentações científicas, juntamente com sugestões literárias e religiosas, a favor da conceção que nos reconhece livre-arbítrio [aqui, aqui...]. Mas reconheçamos: nos quadros do paradigma científico que resultou da revolução científica do séc. XVII, e que tantos êxitos tem facultado, a inclinação será a favor da nossa conceção como seres determinados, sem livre-arbítrio nem responsabilidade.
Quem entretanto mantiver essa discussão aberta, ou, mais ainda, insistir na antropologia judaico-cristã – que acentua a nossa pessoalidade – julgo que encontrará grande proveito na leitura de O Homem em Busca de um Sentido, do autor acima mencionado, cuja tradução portuguesa foi enfim publicada pela Lua de Papel em 2012.
A lição científica de Auschwitz
Frankl foi um dos poucos sobreviventes a Auschwitz – sorte não partilhada por pelos restantes membros da sua família. Esse campo de concentração, pelas suas condições extremas, acabou por se constituir quase como um laboratório de teste de hipóteses das ciências humanas. Nomeadamente pelas consequências psicológicas nos prisioneiros da variação aparentemente de um único fator, observação que sugeriu a esse psiquiatra austríaco a distinção entre dois padrões atitudinais:
De um lado, o dos homens e mulheres que até ao aprisionamento, e depois durante este, escolhiam dedicar-se à conquista das melhores condições possíveis de sobrevivência e de conforto material, social… Em Auschwitz, estes foram os indivíduos que rapidamente perderam as acima referidas caraterísticas de “pessoa”, e desistiram mesmo de tentar sobreviver.
Precisamente o contrário de quem assumia alguma obra a que se dedicar, mesmo dentro do campo de concentração, ou após este, e em nome da qual tentava sobreviver. O autor aponta os casos de (se a memória não me atraiçoa) um cientista que deixara a sua obra inacabada e queria concluí-la, um homem que tinha um filho pequeno na Suécia que ele queria educar, etc.
O fator de se ter, ou não, uma obra a cumprir, revelou-se-lhe como condicionante da probabilidade de sobrevivência de cada pessoa (pelo esforço dedicado a isso). E, muito principalmente, como decisivo para, mesmo em condições inumanas, uma pessoa não perder a sua humanidade (concebendo esta segundo a antropologia judaico-cristã). O objetivo a cumprir confere o sentido da vida de cada ser humano. Cuja busca Viktor Frankl reconheceu em toda a sua obra posterior como o veio nuclear das nossas vidas.
Uma conclusão filosófica
Convergentemente, Susan Wolf conclui em diversos textos que “as vidas com sentido são vidas de entrega ativa a projetos de valor” – afirmando a filósofa norte-americana que este valor não é meramente subjetivo, mas sim objetivo. Ou seja, o projeto de Rudolf Höss – comandante de Auschwitz – de encontrar a forma mais eficiente de assassinar pessoas em massa pode não ter tido valor (não teve mesmo!), por mais que ele (e os milhões de alemães e alguns outros que participaram do Holocausto direta ou indiretamente) subjetivamente lhe conferisse valor.
Dos três tipos de resposta possíveis à questão do sentido da vida humana, Wolf propõe assim o terceiro: A) A nossa vida não tem qualquer sentido; B) A vida de cada pessoa pode ter o sentido, seja qual for, que essa pessoa porventura lhe dê; C) Há um e só um sentido da vida humana, o qual é do interesse de cada um de nós cumprir.
Embora a linha de argumentação seguida por Susan Wolf não permita fundamentar essa objetividade que ela atribui a um sentido da vida humana, isso não implica que outras linhas argumentativas não a fundamentem. Pela minha parte, julgo mesmo que uma outra linha eventualmente a fundamentará, mas reconheço que a argumentação desta filósofa é bem mais acessível a qualquer leigo em filosofia do que essa outra, pelo que aqui me limito à presente menção.
A sugestão de Rufina
Mais rigorosa, ainda que metaforicamente, talvez então possamos dizer: “Deixarmos de estar á deriva, cuidadosos apenas de nos mantermos á tona d’ágoa aconchegados entre outras jangadas iguais, para cada um de nós se tornar antes um barco com alguma carga mais um porto onde a entregar – esta viragem, esta escolha d’um porto de destino, é o sentido geral que encontro na vida humana. Depois, o sentido de cada um será o rumo do porto a que se tiver destinado.
Esta citação é de uma carta escrita (antes da reforma ortográfica de 1911) pela personagem central da ficção histórica agora publicada pela Companhia das Ilhas: Rufina (p. 115).

Ainda que, neste momento da sua publicação recente, eu seja a pessoa menos indicada para avançar interpretações suas (os restantes leitores dela facilmente perceberão porquê), direi que esta obra literária sugere, numa primeira ordem, a assunção de qualquer “projeto de valor” objetivo como sendo o sentido comum da vida humana; determinado, em segunda ordem, em conformidade às caraterísticas subjetivas e às circunstâncias históricas de cada ser humano, o qual o cumprirá na medida em que se lhe “entregue ativamente”.
…e o trabalho do seu leitor
Já divergentemente das duas obras anteriores, como obra de ficção que é, em Rufina não se encontram justificações dessa ou de qualquer outra tese geral. O que, diretamente, aí se encontra é a narrativa desde o dilema do filho, à recordação da chegada a S. Miguel em noite de tempestade, com desembarque por isso na pequena baía de Capelas a 8 de dezembro de 1880, do hospício em Olinda, do percurso dessa família após a bancarrota portuguesa de 1892…
Através dessas descrições descobre-se o mundo em que estas são relevantes. Isto é, o conjunto articulado de quaisquer escolhas, emoções, atos, laços sociais, acontecimentos… que melhor se poderá relacionar aos que ali são narrados, e do qual, portanto, esta obra será representativa. Os mundos literários são, julgo, a referência última das narrativas, mesmo que de ficções históricas como esta.
Mas é a cada leitor que cabe, além de reunir os sucessivos passos da narrativa numa mesma história, descobrir, ou projetar imaginativamente um mundo da obra.
Para, enfim, se dispor o leitor a reconfigurar, ou não, o mundo por si vivido, e assim se reconfigurar a si próprio o leitor, conforme aquele mundo literário.
Esta obra, e aquelas outras duas anteriores, serão pois outros tantos caminhos que levam à mesma Roma (tanto quanto podem ser “a mesma” as Romas em que se entra por caminhos tão diferentes). A cada viajante, agora, antes da escolha entre eles, cabe escolher entre boiar entre jangadas, ou navegar como um barco.
Nota final: não haverá no mundo sítio mais apropriado do que o Correio dos Açores para referir a recente publicação de Rufina. Pois um dos dois fundadores deste jornal foi filho da mulher que dá o nome a esta obra. De quem ele escreveu, após a morte da mãe, que a sua “memória deve perdurar”. Caberá a cada leitor decidir se assim deve ser.

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