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Livre-arbítrio - Da religião a um novo paradigma científico?

Sobre a questão de termos ou não liberdade individual de escolha, e em época de pôr as leituras em dia, escrevi aqui no fim do mês passado que “nenhuma obra merecerá mais essa atenção do que a Ilíada”. Sem desmentir o extraordinário mérito desta obra, retiro porém essa afirmação para me referir hoje ao único livro que julgo acima daquele: a Bíblia.
Tal como nessa crónica anterior, deixando em paralelo uma sugestão de leitura científica em vista àquela questão do livre-arbítrio. Como se dirá nos termos de Robert Laughlin, das leituras deste eminente físico e de algumas passagens bíblicas poderá “emergir” um agosto notável… desde que intercaladas com uns mergulhos no mar!
A liberdade do caminho de Damasco
Começo pelo tipo de frase que Paulo de Tarso ouviu no caminho de Damasco (Actos, 9, 3-5). Após sofrer uma alteração do estado de consciência, que lhe suspendeu os sentidos externos (visão, audição comum…), internamente viu antes uma luz e escutou uma voz que lhe perguntou: “Paulo, porque me persegues?”. Ao invés de frases imperativas – como desde a interpelação de Deus a Abrão (Génesis, 12, 1), à do Arcanjo Gabriel a Maomé (Corão, 96) – com esta pergunta o fariseu viu-se confrontado com as razões que teria para manter a escolha que havia feito.
Paulo começou por responder com outra interrogação: “Quem és tu…?”. Talvez por ter logo respondido à sua própria pergunta – Lucas põe-lhe na boca a palavra “Senhor” a encerrar aquela frase – recebeu de seguida a determinação imperativa do que deveria fazer. Todavia o mesmo evangelista (Lucas, 9, 18-21) salienta que, em geral, Jesus não respondia a tal pergunta. Deixava cada pessoa que a fizesse na liberdade, e na solidão, de ter também de responder.
A mesma solitária liberdade de Heitor a caminho do combate fatal, a que me referi na crónica anterior. A qual, nas referidas passagens do Antigo Testamento e do Corão, se encontra pelo menos na decisão de cada interpelado entre converter-se ou não – assim como, para os budistas Zen, no ego que escolhe entre abdicar de si ou não, etc.
O reducionismo científico moderno…
Uma liberdade individual a que se contrapõe a tese dominante das ciências sociais e humanas, na esteira da revolução científica do séc. XVII: todo o fenómeno tem uma causa e, uma vez esta ocorrida, aquele efeito segue-se-lhe necessariamente. No caso humano, as nossas vivências mentais (conhecimentos, emoções, perceções, memórias, impulsos, desejos…) serão a mera manifestação de processos neuronais e hormonais. Os quais obedecem às mesmas regras físicas e químicas que regem quaisquer processos elétricos – desde o nosso cérebro ao computador em que escrevo estas linhas – ou quaisquer reações químicas – como as que, começando com uns grãos duma certa planta, resultaram nesse café que o leitor porventura aí terá ao lado do seu jornal.
Nesta outra conceção de ser humano, quando eu sinto que escolhi escrever estas linhas, ou quando o leitor sente que escolheu lê-las, esse sentimento será portanto uma trapaça que o nosso corpo prega às nossas pobres consciências.
É neste ponto que valerá a pena pôr de lado, enfim, não direi o jornal todo, mas pelo menos este artigo, e encomendar à editora Gradiva a obra Um Universo Diferente, Reinventar a Física na Era da Emergência (2008), de Robert Laughlin – ou recordá-lo, quem já o leu.
… Versus um paradigma científico emergentista?
Esse Nobel de física de 1998 propõe aí que se reinvente toda esta ciência (“from the bottom down”, no subtítulo original) – a qual inclui o eletromagnetismo, das relações entre neurónios; e funda a química, de quaisquer reações hormonais, neuronais e gliais. Designadamente, uma reinvenção cuja base (“bottom”) será o conceito de “emergência”.
Em síntese, Laughlin põe em xeque o paradigma científico vigente desde o séc. XVII, segundo o qual se explica qualquer fenómeno – ex. o calor que se propaga do seu café aí ao lado – não por apontar umas suas causas, mas por traçar o modo do processo. Para o que se reduz este último a partículas que o componham – ex. átomos ou moléculas do café – e às regras que rejam o comportamento delas em tal processo – ex. as leis da termodinâmica.
Essa redução parece implicar que o tempo físico pode andar para trás – tal como, mediante certas peças de Lego e gestos em certas direções, se pode construir uma ponte, uma casa… depois, fazendo aqueles gestos, sobre aquelas peças, naquelas direções, mas agora no sentido inverso, se pode desconstruí-las, e depois voltar ao sentido inicial e construí-las, etc. (Einstein foi um dos que acreditou na inexistência de uma seta do tempo).
Contra isso, porém, ainda no séc. XIX Ludwig Boltzmann propôs que – conforme a celebérrima Segunda lei da termodinâmica – apenas com o que se encontra no processo de dissipação do calor do seu café não é possível invertê-lo (se o leitor se deixou embrenhar nestas reflexões e se esqueceu de o tomar todo, terá de pedir ao empregado que traga outro, ou que volte a aquecê-lo com a energia da máquina; contando só com o sistema composto pelo café, a chávena, e o ar em volta, é que não voltará a tê-lo quente).
Isto é, alguma novidade “emergiu” ao longo do processo, marcando neste a diferença entre um antes e um depois dela – e determinando assim um sentido numa seta do tempo do arrefecimento do café. O que Robert Laughlin propôs na década passada – de resto como antes o também Nobel Ilya Prigogine, etc. – é que as explicações da natureza devem considerar saltos irreversíveis, não se limitando a reduzir os fenómenos a partículas elementares e regras da respetiva composição.
Emergentismo, livre-arbítrio… e sentido da vida
Porventura a explicação da consciência humana poderá então tomá-la como um nível emergido do nível biológico (do vivo). Assim como este terá emergido do nível químico (das propriedades elementares). E este terá emergido do nível físico (dos movimentos entre partículas). Cada nível apresentando alguma novidade relativamente ao anterior.
Porventura, pois, nas nossas decisões conscientes de escrever/ler estas linhas encontrar-se-á algo mais do que meros processos físico-químicos. De forma que, à partida, um determinismo destes não encerrará a possibilidade de alguma liberdade da consciência.
A qual nos deixará, enfim, com a seriedade, e a responsabilidade, de algumas escolhas pelas quais determinaremos quer as nossas biografias, quer mesmo as nossas personalidades – como Lucas afirmou sobre Paulo no caminho de Damasco.
Para tais escolhas cruciais urgirá então esclarecermos o sentido que, através delas, importa cumprirmos na vida. Depois de nos últimos meses ter aqui trazido repetidamente a questão do livre-arbítrio, ficará para a próxima crónica desta série, a meados do próximo mês, uma abordagem a essa outra questão do sentido da vida humana. E novamente entre a ciência e a literatura.

in: Correio dos Açores, 13/08/2016

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