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Um mérito científico de J. Rodrigues dos Santos

Nos últimos dois meses, em alguns dos principais órgãos de comunicação social portugueses, levantou-se uma acesa discussão sobre um tema, aliás dois temas, alheios ao futebol, à economia, e distantes da política partidária quotidiana. Coisa rara! Refiro-me à questão da origem do fascismo, que José Rodrigues dos Santos (JRS) atribui ao marxismo. Uma questão que logo se desdobrou em duas: a da determinação dessa origem, e a do processo apropriado para determinar a origem de uma ideologia.
O crédito que poderemos dar à primeira resposta depende do valor da segunda. Não se querendo então JRS ficar pelo reconhecimento social de quem o lê apenas para se distrair, e pelo correspondente avolumar da conta bancária dele, o jornalista e escritos veio reclamar "que a afirmação [de que o fascismo tem origens marxistas, é] (...) fundamentada (...) ao pormenor em As Flores de Lótus e em O Pavilhão Púrpura" ("O fascismo tem origem no marxismo", Público, 29/05/2016)
Esta pretensão de que narrativas de ficção podem fundamentar ao pormenor teses históricas é o que aqui me traz hoje. Para recusar essa possibilidade, mas encontrando um mérito na sua proposta pública.
Desde logo porque os casos apresentados em qualquer romance – ações e vivências de personagens – não são reconhecidos na sociedade ou na natureza. Antes são desvinculados destas precisamente pela criação ficcional. Assim constituem um mundo da obra, mas não o mundo em que nos encontramos, e onde decorrem as ações reportáveis àquelas ideologias.
Na melhor das hipóteses, as ações narradas por JRS fundamentariam ao pormenor uma relação entre o que, no mundo dessas suas duas obras, é chamado “fascismo”, “origens” e “marxismo”. Mas essa relação só será de cada vez aplicada ao mundo dos leitores, o mundo dito “real”, na medida em que cada leitor eventualmente julgue que aquilo que no primeiro desses mundos é chamado “fascismo”… coincide, ou pelo menos se aproxima satisfatoriamente, do que no nosso mundo designamos por esses termos. O que se verifica naquele mundo, portanto, por si só não fundamenta o que quer que seja no segundo – depende sempre de cada leitura.
Mas nem essa melhor hipótese é válida, pois me parece que JRS comete dois elementares erros de análise.
De um lado, se (em qualquer desses mundos) se reconhece alguma diferença entre fascismo e marxismo (independentemente de poderem partilhar caraterísticas, como a desvalorização dos indivíduos, a conceção progressista da história, etc.), então, sobre a relação entre as respetivas origens, ficamos com uma de duas: ou estas nada têm em comum, ou têm-no.
JRS afirma a segunda hipótese. Que por sua vez enfatiza uma de duas: ou são dois ramos de um tronco comum, ou uma ideologia evoluiu a partir da outra. JRS parece inclinar-se para a última hipótese.
O que então o obrigaria a reconhecer a negação de alguma(s) caraterística(s) do marxismo, e a proposta da respetiva alternativa fascista, como as duas faces da origem direta, efetiva desta última ideologia. Pois o que terá gerado o fascismo como tal terá sido essa dupla de momentos negativo e positivo, e não o que a nova ideologia mantivesse do marxismo, que é precisamente o que não terá gerado o fascismo.
Pode JRS objetar que persiste a comunhão de conceções sobre a história, etc. Mas então – e como aliás o jornalista bem aponta no começo do referido artigo no jornal Público – inclinar-nos-emos para a hipótese do tronco comum na anterior encruzilhada. De forma que o fascismo terá uma origem geral, partilhada com o marxismo (mas que se não confundirá com este, como o gesto de uma palmada se não confunde com o som que origina). Mais uma origem específica, que distingue a primeira ideologia da segunda. O que ainda afasta mais o fascismo do marxismo do que a anterior confusão analítica de JRS – além de recusar que uma ideologia tenha origem “na” outra.
De outro lado, JRS falha ao não distinguir analiticamente (seja num mundo literário, seja num mundo real) o campo psicológico e sociológico, e o campo teórico ou ideal.
Veja-se um caso concreto que ele menciona: Mussolini começou por se assumir como “socialista” (atenção que quando uma pessoa usa um termo não é límpido que lhe esteja a dar o mesmo sentido que outro utente do mesmo termo, aquela assunção não é suficiente para afirmar uma unidade ideológica entre esse político italiano e os marxistas do seu tempo); depois, a sua interpretação da mobilização das pessoas na guerra ítalo-otomana tê-lo-á levado a reconhecer uma primazia do sentimento nacionalista na agregação dos povos; para enfim defender um coletivismo nacionalista.
Mas o que essa biografia política sugere é uma origem da adesão do homem Benito Mussolini à ideologia fascista já em curso. Trata-se de um processo psicológico. Porventura paralelo a outros que tenham conduzido os respetivos sujeitos à mesma adesão ideológica, sem alguma vez terem assumido teses marxistas. Não se trata do processo ideal ou teórico ao longo do qual umas ideias como estas últimas podem ser, ou não, logicamente relacionadas a outras. (Um processo que aliás tem de englobar a validação daquele próprio enquadramento lógico). E nesta relação ideal é que se encontra a origem de cada ideia tal como ela é.
Assim, e no exemplo histórico da crítica à fundamentação psicologista da matemática, é verdade que dois mais três é igual a cinco não porque as mentes humanas estão constituídas de modo a afirmá-lo – e portanto os computadores, os marcianos… poderiam afirmar que é igual a seis; mas sim porque, dados os conceitos de “dois”, “três”, “cinco”, "mais" e “igual”, pelo menos no seio da lógica clássica qualquer contrária da proposição 2+3=5 seria contraditória.
Em suma, quer no seio do mundo real, quer no seio do mundo de qualquer obra literária, ocorrências mentais e sociais originam fenómenos psicológicos; ao passo que a origem de ideias se encontra em outras ideias, e na lógica que permite relacioná-las. Depois, se num mundo literário se apresentar um daqueles processos psicológicos, nem ao pormenor nem sem estes fica fundamentado, no mundo real, qualquer processo da mesma natureza, e muito menos ainda outro teórico.
Nada do que antecede desvaloriza a obra literária em geral – aliás, proximamente virei aqui valorizá-la tanto quanto consigo.
Também o que antecede está longíssimo de ser suficiente para demarcar fundamentações científicas de quaisquer propostas pseudocientíficas. Abordei essa demarcação no post A expansão do Império Mongol aos Açores - I. provas e, especialmente, na crónica sequente Então não diremos que o Império Mongol se estendeu aos Açores? (ambas online). Mas para chegar ao reconhecimento da dificuldade de algum critério que permita demarcar claramente ciência e pseudociência.
Este é então o mérito científico que encontro na proposta de José Rodrigues dos Santos de uma certa fundamentação ao pormenor em ciência política, mais precisamente em história das ideologias, no seio de dois romances: exemplifica a tal ponto as pseudofundamentações, que reforça a crença numa distinção entre estas e as fundamentações válidas, dando alento à procura do respetivo critério de demarcação, por difícil que este seja.


In: Correio dos Açores, 12/07/2016

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