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Livre arbítrio - Da literatura antiga às neurociências

Em época de pôr as leituras em dia, nenhuma obra merecerá mais essa atenção do que a Ilíada. Na qual se encontra – além do resto! – uma das mais comoventes passagens (do pouco que conheço) da história da literatura: Heitor, príncipe de Tróia, ao se dirigir para o combate onde representará a sua cidade contra Aquiles, campeão grego e melhor de todos os guerreiros, cruza-se com a esposa mais o filho. E, a caminho da sua quase certa morte violenta, para não assustar a criança com uma imagem bélica, Heitor tira o capacete ao se despedir de ambos.
O enigma de Heitor
Fosse o príncipe troiano determinado hereditariamente, ou pela sua educação, ou pela circunstância do cerco dos gregos… qual espécie de marioneta, e nele ou não haveria lugar a grande cuidado com uma criança, à margem da caminhada para o combate final. Ou, como Páris, tentaria furtar-se a este último, reduzindo-se à vivência das emoções amorosas. Mas, em Heitor, houve lugar a estas e ao combate mortal.
Duas interpretações são possíveis: uma foi logo feita pelos gregos, que tomaram o líder dos inimigos como o maior exemplo humano na educação dos próprios jovens gregos. Por ser o homem completo. Ao ponto de conquistar a liberdade interior em cujo seio terá escolhido assumir as obrigações do seu estatuto real, apesar de ter sido o irmão mais novo que espoletara a guerra, apesar de Heitor ter discordado com o pai quando este recusou negociar a paz, apesar da dor que sofreriam a mulher e o filho por ele amados.
A interpretação que dominou as ciências sociais e humanas na segunda metade do séc. XIX e no séc. XX foi diferente. Segundo o paradigma determinista das ciências da natureza desde o séc. XVII, que aquelas outras novas ciências logo assumiram, as grandes orientações comportamentais dependem da personalidade, e esta será determinada seja pela hereditariedade, seja pelas diversas aprendizagens no meio social, seja por acontecimentos que marcam os indivíduos.
Autodeterminação e neuroplasticidade
Já neste século, porém, experiências como as da equipa de Julia Freund parecem reforçar uma alternativa àquele paradigma científico determinista.
Na linha, aliás, das investigações sobre neuroplasticidade. A qual tem sido verificada ao nível da configuração da rede neuronal – ex. um estudo célebre revelou que condutores de táxi em Londres têm o hipocampo (área cerebral responsável pela orientação espacial e pela transformação da memória de curto prazo em memória de longo prazo) maior do que tinham antes de terem de decorar as ruas dessa cidade. Essa plasticidade verifica-se igualmente ao nível inferior da morfologia das células nervosas, quer neurónios quer células gliais, cujas variações de tamanho e forma ao longo do tempo condicionam a informação que as terminações neuronais podem emitir e receber. Verifica-se ao nível ainda mais inferior das sinapses (ligação entre axónios e dendrites de neurónios diferentes), desde variações da estrutura e densidade das terminações dendríticas, e quantidade de neurotransmissores libertados nas sinapses (o axónio liberta partículas carregadas eletricamente, que excitam uma dendrite de outro neurónio, a qual transmite o sinal elétrico ao corpo deste último); até uma variação da proteção e potenciação que as células gliais prestam às sinapses. A neuroplasticidade verifica-se, enfim, ao nível elementar do condicionamento da expressão versus a inibição de cada gene neuronal – ex. por regulação circadiana (ritmo dia/noite) – no seio de todos os genes que um indivíduo possui.
A constituição nervosa não pode pois ser totalmente determinada pelo código genético. Poderia todavia continuar a ser imposta a cada sujeito por fatores adquiridos como a alimentação, situações de stress… A experiência de Freund vem sugerir que estes não são os únicos.
Os investigadores dessa equipa criaram quarenta ratinhos geneticamente semelhantes, num mesmo ambiente complexo (composto por diversos compartimentos, com água ou alimentos, e passagens diferenciadas entre eles). Ao fim de três meses, alguns animais – por nenhuma razão inata ou ambiental, visto que estas condições eram as mesmas para todos eles – tinham explorado o espaço disponível, enquanto outros se tinham quedado por uma parcela dele. Tendo os primeiros desenvolvido mais os respetivos hipocampos, ao longo desse tempo, do que os segundos.
Ou seja, sem prejuízo de condicionamentos inatos e adquiridos, a individualidade vai-se construindo ao longo de um processo de escolhas. Não é absolutamente prévia, e determinante, de todas estas últimas. (Sobre a individualidade especificamente humana, ou personalidade, veja-se a bibliografia no artigo referido).
As neurociências e a sugestão da literatura clássica
Assim, Heitor e Páris tinham partilhado a mesma educação real, e herdado traços familiares (genéticos) comuns. Mas o primeiro, ao enfrentar sozinho Aquiles sob as muralhas de Tróia, confirmou-se numa heroicidade de que já tinha dado sinais, embora sem essa radicalidade. Enquanto Páris, ao fugir no combate com o outro campeão grego que o desafiara, se confirmou definitivamente numa cobardia que antes não o definia por completo.
Resta saber quem ou o quê, em cada indivíduo numa encruzilhada, decide o caminho a seguir.
A sugestão que encontro em Homero é que essa origem, no caso humano, não é o acaso, nem apenas quaisquer paixões da alma – ou impulsos, como se diz na psicologia contemporânea.
Pois, quanto a estes, durante o combate Heitor também tem comportamentos que indiciam pânico. Mas controla-o e volta a enfrentar Aquiles. A sua decisão encontra-se assim no momento do domínio da vontade sobre os impulsos.
Tal como é muito improvável que essas decisões se devam ao mero acaso – a articulação entre os seus comportamentos de naturezas ou raizes tão diferentes (emocionais, racionais…) sugere uma mesma intencionalidade a reuni-los.
Na terminologia filosófico-científica moderna, chamamos “consciência” a essa instância decisora. Não um mero “sentimento de si” (António Damásio). Mas uma instância capaz de, livremente, hierarquizar valores, reconhecer as situações concretas da respetiva aplicação, decidir em conformidade entre alternativas práticas, e mobilizar a vontade para o comportamento escolhido. Além de gerar conceitos, etc.
À constituição e funcionamento de uma tal consciência, porém, têm os neurocientistas contemporâneos chamado “the hard problem”…
Bem precisaremos pois do descanso de uns mergulhos agora no mar para, depois das férias, eventualmente mergulharmos em qualquer trabalho de tamanho problema.

in: Correio dos Açores, 28/07/2016

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