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A cabeça não é a oitava maravilha

Quando a cabeça está convencida / De que ela é / A oitava maravilha / O corpo é que paga / O corpo é que paga. / Deixa sofrer, deixa sofrer / Se isso te dá prazer…

Filosofia: Modernidade vs. séc XXI

Contra António Variações se ergueu a maioria dos filósofos do séc. XX, e mesmo boa parte da filosofia das ciências desse período. Argumentavam que o que chamamos “realidade” será uma projeção da nossa forma de perceção, de pensar e dizer… Mesmo as elaboradíssimas justificações científicas, que certeza nos poderão facultar quando verificamos que as ciências nos garantem hoje teses com a mesma segurança com que ontem nos garantiam o contrário? Quando nos apercebemos das influências sociais, religiosas, políticas… sobre investigações científicas, e mesmo sobre algumas formulações dos seus resultados?
Um (não é o único) grão de areia nessa engrenagem teórica, como muito bem aponta o cantor português, é que depois, à conta disso, algum “corpo” recebe uma conta para pagar. Ou seja, haverá alguma realidade contra a qual se partem as elucubrações mentais, por maravilhosas que estas sejam.
“Deixa sofrer, se isso te dá prazer…” – Como porém tenho ideia de ter lido no filósofo espanhol José Antonio Marina, os pós-modernos (umas das cabeças convencidas de serem a oitava maravilha) dizem que o bem e o mal são relativos, que o que é mau é opô-los em absoluto… mas só enquanto o mal é em casa do vizinho, que quando é na deles percebem logo a diferença! O mesmo vale para realidade vs. fantasia, verdade vs. falsidade. Deixa sofrer, sim, mas se for o vizinho.
Neste início do séc. XXI, a favor da intuição de A. Variações, parece então estar a erguer-se uma resposta realista. Referi nestas páginas alguns dos seus principais autores em “O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (2)” (17/11/2015). Um dos quais, Maurizio Ferraris, nos dias 10 e 11 deste mês esteve no Instituto de Filosofia (IF) da Universidade do Porto, a argumentar a favor dessa resposta.

Algumas aplicações portuguesas:

Dos seus conceitos chave, julgo que um nos vem particularmente a propósito quando, de um lado, o Primeiro-ministro nos procura mobilizar com uma vaca voadora. E, do outro lado, tanto a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (de apoio ao parlamento) como o Conselho das Finanças Públicas (CFP) apontam que o Governo apenas inscreveu quantitativamente no atual Programa de Estabilidade (PE) menos de um terço dos processos para atingir as metas de redução do défice.
Refiro-me ao conceito de “documentalidade” – o leitor encontra uma sua brevíssima introdução na página daquelas conferências no site do IF. Ainda que naturalmente menos avalizada do que essa explicação, aqui deixo a seguinte:
Ferraris considera que “objetos sociais” como dívidas, compromissos políticos (ou outros), etc., se distinguem de “objetos naturais” como o papel onde o PE esteja impresso, o corpo da Dra. Teodora Cardoso, etc., na medida em que os “objetos naturais” não precisam de ser percecionados, pensados… para existir (simplificando: o corpo da presidente do CFP continuará entre o momento em que ela adormece e o momento em que acorda, apesar dela não ter consciência dele deitado na cama); já os “objetos sociais” não existem sem a intervenção de quaisquer sujeitos.
Daí não decorre porém, segundo o filósofo italiano, que por exemplo a dívida externa portuguesa se possa esvair por um mero “Não pagamos!” proclamado pelos deputados do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista, e pelo Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares (nos seus tempos de oposição entusiasmada). Pois aquela dívida tornou-se um “objeto social” quando tanto o Estado, as empresas e famílias portuguesas a assumiram, quanto os respetivos credores, quanto ainda todos quantos tenham informação dela. Ou seja, a dívida existe não por mera decisão de qualquer sujeito, mas pelo jogo intersubjetivo entre um número indeterminado deles.
É um objeto a que temos de nos adequar. Pagando seja em dinheiro, seja com o custo do que convença os credores a uma renegociação dessa dívida, seja com o custo do poder que nos permita fazer outros pagar por nós… seja pelas consequências de sermos catalogados como caloteiros (talvez seja pelas dores dessa adequação que Pedro Nuno Santos perdeu o entusiasmo assim que passou para o Governo).
Simetricamente, nenhum processo concreto para reduzir o défice público existe enquanto não é inscrito no seio do jogo intersubjetivo de todos os agentes que dele participem no país, nas instituições da União Europeia, etc. Nomeadamente, inscrito onde seria mais próprio: no PE.
Mas, se os agentes mais poderosos desse jogo inscreverem – pelas decisões da UE – que aquela inexistência terá um custo, então vai haver corpos que vão sofrer.
E facilmente imaginamos quais virão a ser: não os das cabeças que sugerem ser capazes de, por decreto, fazer voar quaisquer vacas… mas que entretanto vão garantindo futuros lugares nas administrações das empresas a que antes entregam obras públicas, etc.
O sofrimento que deixam é antes para os seus vizinhos – Aqueles que se descuidam das maçadoras análises críticas entre objetos “naturais” e “sociais”, ou que se demitem de daí retirar consequências práticas, para se entusiasmarem antes nos muito mais fáceis louvores à oitava maravilha do mundo que aquelas primeiras cabeças serão.


P.S. Esta não é uma crónica de política partidária atual. Pelo menos desde Alcácer Quibir temos tido bastantes cabeças candidatas a oitava maravilha, cada qual com a sua vaca voadora. Os resultados porém têm sido sempre do mesmo nível. Mas deixa ser, se isso nos dá prazer.

in: Correio dos Açores, 26/05/2016

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