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A economia é uma ciência... ou será engenharia, artesanato?

Particularmente neste período em que se discute se as receitas assumidas no Orçamento do Estado são ou não prováveis, e se a opção da atual maioria parlamentar por uma política económica pelo lado da procura (aumento de salários…) é ou não prometedora no contexto económico português, a pergunta acima não é de todo um fait divers, ou uma especulação gratuita. Ao contrário, é absolutamente determinante, e urgente.
Pois ao conhecimento de tipo científico é reconhecida uma muito maior fiabilidade do que ao senso comum, particularmente em questões complexas. O que nos convida a confiar nos economistas “cientistas”… se os há. Caso contrário, maior crédito merecerão uns economistas, digamos, “engenheiros”, “artesãos”…
A questão coloca-se em especial desde o fim do séc. XVIII, quando Adam Smith e os consequentes economistas clássicos pretenderam equacionar os fenómenos económicos à imagem do que Galileu, Kepler, Newton… tinham já feito, com extraordinário sucesso, aos fenómenos físicos.

Uma economia com a vista na física

A saber, o conhecimento dito “científico” continuava a tratar de classes e leis gerais (como Aristóteles logo apontara). Mas teria de ser testado em experiências montadas em vista de cada aspeto a esclarecer. E não apenas resultar de especulações na base da observação natural dos fenómenos na sua ocorrência espontânea; ou, pior, de especulações na base da imaginação do senso comum. Por exemplo: nesta última base, sente-se o leitor habilitado para responder à pergunta por qual das bolas largadas ao mesmo tempo do alto duma torre chegará primeiro ao chão, uma bola de madeira oca, ou outra com o mesmo diâmetro mas de ferro maciço? Eu confesso que me sentiria habilitado… para apostar no contrário da resposta que Galileu estabeleceu até hoje mediante uma experiência controlada.
Por respeito a essa exigência de verificação empírica (além do eventual interesse em aplicações práticas), as teorias científicas devem facultar a previsão de acontecimentos, cuja ocorrência confirmará então aquelas teorias. Por exemplo: a verificação de um certo movimento de um corpo celeste reforça a teoria astronómica que tiver facultado a previsão desse movimento.
E a verificabilidade das previsões, por sua vez, normalmente requer a matematização das teorias – ex. a determinação numérica do tempo e da trajetória tanto da previsão, quanto da ocorrência daquele movimento astronómico, para que possam ser comparadas com rigor.
Em suma, as ciências naturais modernas não respondem tanto à pergunta pela causa mobilizadora dos fenómenos, mas antes à pergunta pelo modo destes acontecerem. Procurando articular as diversas fórmulas de cada disciplina sob alguns poucos princípios, como as matemáticas sob os respetivos axiomas.
E quanto a uma “ciência” social e humana como a economia? Compreensivelmente, muitos dos seus agentes têm tentado a fórmula que deu tantos sucessos aos seus colegas físicos, químicos e biólogos. Daí a economia clássica, que historicamente tem constituído a ortodoxia teórica dessa “ciência”, com as suas teorias e modelos dedutíveis de, ou pelo menos com suporte em, dois postulados. O da racionalidade dos agentes económicos – ex. se o leitor ainda me acompanha neste ponto do artigo em vez de ter já escolhido passar a outra leitura, é porque julgará que o benefício desta leitura compensa o respetivo custo mais do que o custo/benefício das alternativas. E o postulado do equilíbrio entre a procura e a oferta no mercado – ex. o número de artigos de opinião sobre ciências publicados na comunicação social, e o número de artigos de opinião sobre futebol ou politiquice partidária, representarão simplesmente os equilíbrios entre as ofertas e as procuras de uns e de outros, no mercado das leituras portuguesas.

E uma economia com a vista nos comportamentos humanos observáveis

Não precisávamos porém de chegar ao prémio Nobel da economia de 2002 para desconfiarmos que podemos fazer escolhas sem estimativas razoáveis do custo/benefício.
Quanto ao segundo postulado, e no exemplo dado, também bastará o senso comum para desconfiarmos que, optando muitos estudantes pelo jornalismo parece que em parte para escaparem ao rigor do formalismo matemático e do concetualismo filosófico, ou talvez enfadados com a demora e dimensão destes outros trabalhos… uma vez alcançando a direção dos órgãos de comunicação social, tenderão a enviesar o mercado da publicação a favor da politiquice e do futebol, que bem percebem, em detrimento de discursos a que há muito (bastantes, não necessariamente todos esses diretores) serão alérgicos.
Na suspeita assim de alguma irracionalidade dos agentes económicos, e de algum enviesamento dos mercados, os economistas têm proposto diversas teorias heterodoxas à tradição clássica. Em qualquer caso, não consta que qualquer de tais teorias tenha facultado a previsão dos movimentos das cotações da bolsa com anos de antecedência (como os astrónomos conseguem)… ou sequer uma hora antes! E o mesmo vale para as previsões, que por estes dias se estão a confrontar, sobre as consequências de uma política portuguesa pelo lado da procura vs. as de outra pelo lado da oferta (descida do IRC…).
Por outro lado, salvo talvez (!) mediante processos nazis, normalmente não é possível decompor a vida social e humana para se isolar apenas um dos seus fatores, e testá-lo mantendo os restantes invariantes, como em ratos num laboratório farmacológico. No conhecimento social e humano, na maior parte dos casos, apenas a observação natural é possível – como se fazia na ciência antiga e medieval.
Portanto, pelo menos como a física ou a química modernas, o conhecimento da economia não merece o nome “ciência”. De forma que, quer a jusante a confiança reconhecida a estes últimos resultados, quer a montante o tipo de pensamento, os recursos mentais, etc. que os produzem, não se aplicarão integralmente ao estudo da economia.
O que não significa, todavia, que para este estudo baste o palpite com que decidimos, por exemplo, se a vendedora de peixe que nos atende será honesta. Nem significa que a atual argumentação do ministério das Finanças, sozinho de um lado, mereça a mesma des/confiança que, do outro lado, as do conselho das finanças públicas, da unidade técnica de apoio orçamental, da comissão europeia, de todas as agências de notação…
Talvez antes o nome “ciência” é que seja multíplice. Isto é, que os conhecimentos sociais e humanos não se construam como os naturais – e porventura nem esta divisão é acertada – pese embora, nuns e noutros, se deva distinguir um plano do senso comum e outro dito “científico”.
É na resposta a estas questões que encontraremos alguma justificação para assumirmos o modo como se deve decidir desde onde aplicar algumas poupanças, até em que política económica votar (entre outras políticas) nas próximas eleições legislativas. Seja para identificarmos os economistas que merecerão maior credibilidade sobre tais matérias, seja para cada um de nós encetar a respetiva reflexão sobre estas.

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