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Alterações climáticas - Regresso à ponte de um superpetroleiro

Neste último domingo foi novamente noticiado o projeto ClimAdaPT.Local, pelo trabalho de “identificar as fragilidades em cada município [relativas às alterações climáticas] e traçar estratégias para as ultrapassar” (Diário de Notícias).

Informação pública? Sim. Mas...

Uma identificação que, a avaliar pelos “Objetivos” e pelas “Fases” daquele projeto (v. respetivo site), se afigura assentar numa disponibilização de conhecimentos sobre clima, ordenamento do território… a autarcas e técnicos municipais, em vista à implementação das respostas localmente mais adequadas.
Enfatiza-se assim um dos dois requisitos que tinham sido feitos na sessão de fevereiro de 2014 do Núcleo de Estudos de Ciência,Tecnologia e Sociedade (NECTS), do Instituto Cultural de Ponta Delgada, praticamente um ano antes do lançamento daquele projeto nacional (janeiro de 2015).
Me parece faltar porém reconhecer no mesmo plano, e desenvolver, o outro requisito.
O qual julgo dever ser tido em conta não apenas na Câmara Municipal de Vila Franca do Campo – único município açoriano participante desse projeto – e pelos responsáveis nacionais do ClimAdaPT.Local; mas ainda em quaisquer concelhos vulneráveis às alterações climáticas (erosão da costa, secas e chuvas torrenciais… haverá algum concelho que escape a qualquer dessas alterações?!); e, talvez até principalmente, importa que seja considerado por todos nós cidadãos, em particular se organizados em grupos como o NECTS. (Contra mim falo: depois duma curta participação nesse núcleo de estudos, reorientei o meu pouco tempo livre para outros trabalhos que me eram mais apelativos. Todos temos sempre tantos afazeres e interesses mais urgentes… Enquanto se avolumam problemas que porventura um dia submergirão (literalmente!) os pequenos interesses privados. E não são depois quaisquer dar a mão à palmatória, como estas minhas linhas, que chegarão para os resolver).
Com efeito, é certo que se menciona “a consciencialização dos atores locais”, ou “apoiar a adaptação local” (ClimAdaPT.Local). No entanto este plano local parece ficar remetido para a passividade de quem é consciencializado, a secundarização de quem apenas adapta…

...e a intervenção dos agentes locais no conhecimento?

Ora essa hierarquia, esse curso da informação eminentemente no sentido dos cientistas para os atores locais, foram rebatidos pela referência que fizemos na referida sessão a uma “coprodução do conhecimento” em causa. Em sintonia, aliás, com a Organização Meteorológica Mundial.
Desde logo, seja no reconhecimento dos problemas concretos – aqueles, afinal, que efetivamente importa resolver – na recolha de informação relevante… seja no levantamento de questões teórico-práticas correlativas, os atores locais são pelo menos co-originários de um corpo de conhecimentos como o visado pelo ClimAdaPT.Local.
Ainda menos secundarizados podem ser no conhecimento, já não natural mas sociocultural, do modo como cada comunidade se poderá apropriar, se possível, das teorias explicativas dos fenómenos em causa, mas necessariamente das tecnologias e práticas que lhes respondam, de forma que esta resposta seja eficaz.
E enfim na avaliação das propostas implementadas, democraticamente, o facto é que os soberanos são os cidadãos a quem elas se dirigem.
«Ou seja, qualquer teoria climática TC envolve o grupo social G em que é produzida, proposta, aplicada, e avaliada» (in: Perspetivando os próximos invernos – interrogações como que na ponte de umsuperpetroleiro).
É precisamente essa complexidade que assemelha às manobras de alteração de rota de um superpetroleiro – em toda a sua morosidade e preparação prévia – a produção de um conhecimento teórico-prático eficaz na resposta às alterações climáticas.
O qual se jogará nos dois sentidos entre investigadores e atores locais, e não eminentemente dos primeiros para os segundos.
Neste regresso (de passagem!) à ponte de um tal navio, retomarei então quatro notas apresentadas na sessão de fevereiro de 2014 do NECTS, relativamente às condições de apropriação sociocultural de quaisquer tecnologias e práticas. Mais as consequentes perguntas que então nos colocámos sobre a sua verificação nos Açores, no âmbito da resposta às mencionadas alterações:
«i) Para que se potencie o uso de uma tecnologia T por um grupo social G, convém que o menor subgrupo de G seja o das pessoas que se recusam a usar T, ultrapassado pelo subgrupo dos que a usam habitualmente, com a maior parte da população a dispor-se a este uso.
Para isso, desde logo ii) têm de ser derrubadas quaisquer “barreiras atitudinais” – i.e. eventuais valores de G que sejam violados pelo exercício ou efeitos de T, de modo que o grupo social se recuse a apropriar-se dessa tecnologia.
Mas a mera negação dessas barreiras não garante a apropriação tecnológica. Positivamente, convém iii) que em G se implementem discursos favoráveis ao exercício e aos efeitos de T, facilitando, induzindo mesmo a apropriação desta última num seu “uso significativo”. Discursos esses retoricamente tão mais potentes quanto mais esse exercício e efeitos tecnológicos satisfizerem os valores relevantes no grupo social.
Assim como convém iv) que o uso de T se alargue a outros “âmbitos práticos” (laboral, de lazer…) além daquele para que diretamente tenha sido assumido, numa potenciação dessa tecnologia.»
Daí as referidas perguntas (no diapositivo 10 da apresentação incorporada no blogue do NECTS), que aqui volto a colocar:
«A – Os valores e princípios mais importantes na cultura açoriana incorporam os princípios e valores das tecnologias e práticas ambientais? [Para que se não verifiquem barreiras atitudinais].
B – As tecnologias e práticas ambientais satisfazem os princípios e valores importantes na cultura açoriana (garantindo discursos favoráveis àquelas)?
C – A cultura tecnológica açoriana relativa às tecnologias e práticas ambientais (…) encontra[-se] estendida a ambientes práticos além dos ambientes marcados pelo clima?».
Para cada eventual “não”, impõe-se delinear e implementar ações corretivas.

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