Avançar para o conteúdo principal

O 11 de setembro: xeque ao 11 de dezembro*

«What could now sustain them but the spirit of God and His grace?», escreveu William Bradford ao constatar a resistência dos seus companheiros ao rigor daquele primeiro inverno nesse outro lado do oceano. O lugar era a costa do que veio a chamar-se “Massachusetts”. A primavera era a de 1621. E essa foi a colónia constituída pelos sobreviventes dos cento e dois tripulantes que, com uma carga de provisões e uma licença para se estabelecerem na América, tinham partido de Plymouth no Mayflower, e ali desembarcaram a 11 de Dezembro**.
Na sua interpretação calvinista, eles eram os novos Peregrinos, e, como o povo judeu fugindo do Egipto para a Terra Prometida, tinham virado as costas a uma Europa que se teria desviado da Palavra de Deus, e estavam iniciando uma res publica que haveria de cumprir enfim a vontade do Criador. Pois supunham que Deus os havia escolhido, que lhes falava como tinha feito a Moisés – segundo Calvino a letra da Bíblia é a Palavra de Deus, assim imediatamente compreensível a quem a interprete literalmente – e que o Atlântico se colocava entre eles e o seu passado como as águas que engoliram o exército de Ramsés II. De modo que o que restava agora eram as suas mãos e o seu ânimo, mais todo o futuro para conquistarem.
No seio dessa disponibilidade para cortar com o passado, numa projecção absoluta para um futuro glorioso, não admira que as ideias iluministas florescessem nos Colleges Puritanos logo no séc. XVII. Embora a ênfase racional do Iluminismo pudesse ser suspeita à emoção da fé – para alguns, pois outros, como o clérigo Puritano John Wise (1625-1725), consideravam que “é a mesma coisa seguir Deus e obedecer à razão” – o entusiasmo iluminista com a novidade constituía afinal uma confirmação racional da escatologia calvinista, ao mesmo tempo que uma base filosófica para o desenvolvimento científico-tecnológico que, por sua vez, suportaria o crescimento económico. Pergunto-me mesmo se esta temporalidade não constituirá o núcleo da União que se consolidou a partir da Guerra Civil, desenvolvendo-se depois na sua base tanto o ramo mais fideísta e conservador (centrado no Midwest) como o ramo mais racional, crítico e cosmopolita (especialmente nas cidades das costas marítimas), os quais hoje muitos dizem separar – na minha opinião, algo superficialmente – os EUA.
De qualquer modo, terá sido verdadeira aquela interpretação da viagem do Mayflower? – Isto é, foram aqueles colonizadores realmente o novo povo de Deus, firmando-se na Terra que Ele terá prometido e abençoado para todos quantos Lhe respeitem a Palavra? Segundo o ponto de vista epistemológico, essa não é a questão. O que importa é que, naquele momento, poderia ser assim. Isto é, nenhum contra-caso destruía a concepção dos acontecimentos na óptica calvinista.
Esta plausibilidade, porém, tinha uma condição: que nada do passado, ou do estrangeiro, pudesse alguma vez invadir essa nova Jerusalém. Se isso acontecesse já a história deste povo se não encontraria impoluta de sementes não divinas, e a sua res publica seria tão humana quanto outra qualquer.
A 11 de Setembro de 2001 foi precisamente essa condição que ruiu com as Torres Gémeas. A mão de Ramsés tinha cruzado o mar e apanhado os (supostos…) peregrinos do (suposto…) novo mundo. A terra prometida, afinal, era ainda Egipto.
Os calvinistas podem argumentar que Deus deixou o Seu povo sofrer em sinal de algum desvio contemporâneo cuja correcção portanto se impõe acima de tudo – fizeram-no com a SIDA, etc. Assim como os descendentes dos iluministas podem argumentar que o primeiro ataque externo à América não passará dum pequeno passo atrás na imparável marcha em frente da história – foi o que disseram os seus primos estalinistas quando nos anos 1930 se conheceu o fracasso das expectativas económicas… Mas, enquanto uns e outros não lograrem reconstituir a “fortress America” contra aviões sequestrados, cartas armadilhadas, etc., deve-se concluir que estão falhando nessa correcção. Portanto, pelo menos até esse dia, esse lado do oceano será apenas mais um lado do mar, assim como o povo que aí habitar será apenas mais um povo que se assumiu como eleito entre os demais… o que é substancialmente diferente de o ter sido.
Ou seja: o seu way of life é uma possibilidade humana entre outras, não lhes foi revelada por Deus, pelo que há de cada vez que escolher entre alternativas. Nas suas relações com outros países são, e sempre foram, tão interesseiros, quando não imperialistas, quanto podem ser, precisamente como todos os outros países têm feito ao longo da história; nunca foram os portadores de uma universal boa nova (democrática e capitalista), que fossem, quais novos evangelizadores, libertar os restantes povos das trevas autoritárias, etc.
Nesta situação, nova para os americanos mas perfeitamente comum na história humana, é caso para lhes fazer a pergunta que eles próprios tantas vezes usam em situações difíceis: and now, what are you going to do about that?
Segundo Carroll Quigley***, nessas situações os povos têm feito uma de duas coisas: ou cristalizar a tradição, institucionalizando os instrumentos (organizações sociais) que lhes facultaram o desenvolvimento anterior, ou evoluir em conformidade à nova situação, formulando outros instrumentos que a possam explorar  O que aliás, antes de mais, vale para esquemas teóricos como os que permitem conceber a história, a identidade nacional, etc. Quanto às consequências daquela escolha, a experiência confirma o que o senso comum de imediato suspeita: a primeira alternativa constitui o princípio do fim dessa tradição, a segunda enceta uma evolução para uma nova era.
Para este último desiderato seria preciso, digamos, activar os genes americanos que facultem uma concepção tanto do sucesso económico e político desse país quanto da sua vulnerabilidade à agressão externa. Por exemplo, os que facultem uma história evolutiva que compreenda o passado (ainda que o renovando sempre) no curso para o futuro – como veio a ser implementada pela mãe Inglaterra – ao invés da revolução em que os Puritanos tentaram cortar com o passado logo aí na Europa, e depois projectaram para o Novo Mundo.
De acordo com a precedente interpretação do alcance cultural do 11 de Setembro, e com a tese histórica de Quigley, a escolha entre evolução (em detrimento de revolução) ou declínio parece ser a que se depara à cultura americana para este início do séc. XXI. O que afinal configura um regresso da América às suas primeiras bases históricas, a saber, a uma Nova Inglaterra assim baptizada pelo Capt. John Smith em 1614 – cujos colonos tinham acabado de ser incorporados num Concelho por Jaime I quando os autoproclamados Peregrinos aí se instalaram; antes, portanto, dos descendentes destes últimos tentarem reescrever a história para reivindicarem direitos de autor.

Escrito em inglês no original, este texto foi submetido a uma revista norte-americana nas semanas seguintes ao 11 de setembro, não tendo obtido qualquer resposta (apenas porque, certamente, mal escrito?…). Assim, aqui fica publicado pela primeira vez.
** Cf. A. Nevins, et. al., A Pocket History of the United States, 9th ed., Nova Iorque: Pocket Books, 1992.
*** C. Quigley, The Evolution of Civilizations - An Introduction to Historical Analysis2nd ed., Indianapolis: Liberty Fund, 1979.

Comentários