A talho de foice das declarações de Sir Tim Hunt no
mês passado – sobre um desejável apartheid de género nos laboratórios,
para se corrigir a “dirupção científica” causada pelas paixões entre homens e
mulheres, mais os choros delas, diz ele, quando ouvem críticas – julgo vir a
lapidar frase de Abel Salazar: “o médico que só sabe medicina nem medicina
sabe”.
Uma vez porém que o Nobel e o grau de Cavaleiro lhe
foram atribuídos não por uma sua inovação no tratamento de algumas doenças, mas
pelos resultados da sua investigação no âmbito da fisiologia, deveremos ajustar
o juízo numa paráfrase. Como talvez esta: o investigador que do processo só
sabe os resultados nem os resultados sabe.
Em defesa de Sir Tim
Em defesa de Sir Tim
Confesso que sinto por Sir Tim a simpatia por quem
rompe com a ditadura do social e culturalmente correto. Mas a tentativa (!) de
objetividade obriga-me a nem por isso deixar de julgar que errou. Por defeito,
não por excesso. E no sentido da resposta a dar ao problema, não no
reconhecimento deste.
Erro por defeito, pois além de problemas de colocação laboral
como das investigadoras lésbicas que porventura mantenham a lágrima fácil,
etc., ainda resta uma série de fatores humanos que ameaçam a “nivelação” que
Hunt reclama entre os investigadores. Nomeadamente sociais e políticos – como
os que se atribuíram ao célebre caso dos sapos parteiros de Paul Kammerer, que
terão sido pintados secretamente em prol do interesse mais amplo pelo
lamarckismo em tempos de marxismo “científico” (por sinal, hoje há quem
interprete epigeneticamente este caso) – ou fatores psicológicos – que tornem
um acordo do estagiário com o chefe da equipa uma condição da simpatia deste
para com a causa da efetivação laboral daquele, o qual entretanto tem de pagar
a prestação do carro e quer deixar de viver com os pais…
A este último propósito, vale a pena atender a
análises conversacionais de equipas em trabalho laboratorial (v. M. Lynch, K.
Knorr-Cetina…). Por exemplo na observação conjunta de certas cores e formas
numa imagem neurológica, em vista à fixação do respetivo significado, a
gravação das conversas mostra como, uma vez que não tenha havido acordo
inicial, frequentemente chega-se a estes últimos por um processo constituído
por interjeições, meias frases, modulações emocionais, e absolutamente nenhuns
argumentos.
É certo que, nesse método, a escolha dos elementos
conversacionais significativos – palavras soltas, pausas, tons de vozes,
direções dos olhares… – é discutível. E que o significado a dar-lhes ainda o
será mais.
Em todo o caso reconhece-se, por um lado, que o
estabelecimento daquilo que será doravante tomado como “dado” ocorre ao longo
de um processo conversacional – é já pois um constructo.
Por outro lado, esse processo frequentemente
desenvolve-se segundo fatores persuasivos alheios à argumentação lógica, ou
mesmo a protocolos laboratoriais.
Acrescente-se a propósito, com Wittgenstein, que uma
interpretação unívoca de uma regra protocolar precisaria ela própria de uma
regra, e a interpretação desta precisaria de outra… – praticamente nenhum
protocolo será imune à ambiguidade.
Ou seja, basta uma mirada pela questão da objetividade
científica – que se me afigura ser o que preocupa Hunt – para reconhecermos
muitos outros, e mais insidiosos, elementos ou fatores diruptivos. Adiando aqui
para outras oportunidades a crítica ao chamado “programa forte” da sociologia
do conhecimento – que responde simplesmente ignorando qualquer objetividade –
suponhamos que alguma objetividade (ainda que apenas negativa) é possível.
Resta saber em que sentido devemos avançar para a obter.
A pista da Estrela polar
A pista da Estrela polar
Na esteira do nosso Nobel e Cavaleiro parece-me
arriscado. Pois se descartarmos, um a um, todos aqueles elementos e fatores, os
laboratórios poderão acabar esvaziados de quaisquer pessoas. E porventura
também dos utensílios, que implicam as intencionalidades que orientaram a
respetiva arquitetura. (Aos tecnocratas que sonhem com um mundo de máquinas,
destituído de qualquer chata intervenção humana, resta o pesadelo
wittgensteiniano da resolução da remissão ao infinito da interpretação, ainda
que maquinal, de uma regra).
No sentido inverso, temos a pista do navegador que
visa a estrela polar sabendo que todavia não poderá atracar nela. Ou seja, a
conceção clássica de “ciência” constituir-se-á não como um objetivo a cumprir,
mas como um ideal orientador. O qual será tão menos ignorado quanto mais se
reconhecer os riscos diruptivos dos fatores constitutivos do trabalho
laboratorial. Para discutir, e implementar, processos de cruzamento dos
respetivos resultados. Implementando ainda, e tirando consequências de, a
discussão sobre em que medida assim os “verificamos”, e em que medida apenas
reconhecemos, circunstancial e provisoriamente, não serem falsos.
Creio que o melhor que poderemos retirar daquelas
declarações de Sir Tim Hunt é o compromisso de não nos furtarmos a questões
como estas. Quais navegadores a nortearem-se, assim já os investigadores
saberão os seus resultados (e os médicos saberão medicina, etc.).
in: Ciência Hoje, 30/06/2015
(Devo ter algum problema com o Nobel de Medicina e Fisiologia de 2001, recebido também por P. Nurse... que visei por razões próximas destas! - Falta L.H. Hartwell...)
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