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Inter- e transdisciplinaridades - Sim, mas...

No Número anterior desta revista assumi (ingenuamente) de dois conceituados autores o elogio do diálogo entre ciências e tecnologias, e entre elas e as demais áreas da vida social. Nesse texto também lembrei, a outro propósito, o adágio o diabo está nos detalhes. Ocorre-me agora, porém, que será prudente aplicar este último igualmente àquele elogio, ou melhor, ao modo, e aos limites, da sua aplicação.
Para nos acautelarmos, de um lado, com aculturações como a que há quase duas décadas deu azo a um dos episódios não só mais divertido, mas também mais significativo da história do pensamento contemporâneo: o caso Sokal.

Da parolice nas ciências sociais e nas humanidades...

Tem o nome do físico norte-americano que, em 1996, submeteu à revista Social Text o artigo “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica”. O gongorismo do título não foi acidental, ou muito menos fruto de presunção intelectual. Ao contrário, visava apresentar logo à partida a parlapatice de cientistas sociais e profissionais das humanidades que se apropriam de terminologia e teses das ciências naturais manifestamente sem as entender (porventura o que alguma vez me acontecerá ao longo desta colaboração com o Tomate!). Alan Sokal escreveu esse artigo integralmente na base de equívocos linguísticos habituais naquelas apropriações. A revista, porém, publicou-o numa edição especial.
Após a qual o físico lhe enviou um segundo artigo desconstruindo (os pós-modernos, assim tenham eles sentido de humor, gostarão do uso aqui deste termo…) o anterior. Mas sentido de humor, para não dizer mais, foi coisa que não abundou entre os revisores e editores da Social Text: sob a justificação de que o segundo texto não respeitava os padrões editoriais da revista, recusaram a sua publicação.
O que terá levado Sokal, então com o físico francês Jean Bricmont, a escreverem conjuntamente o livro Imposturas Intelectuais (Éditions Odile Jacob, 1997). No qual sustentam que, além daquela falta de entendimento, estas imposturas decorrerão de uma importação de noções das ciências naturais pelas ciências sociais ou pelas humanidades sem qualquer justificação concetual ou empírica; do artifício retórico da exibição de eruditividade em vista à conquista de uma autoridade que não passe pelo crivo da crítica ao discurso apresentado; do desrespeito pelas regras lógicas e argumentativas elementares que serão transversais a quaisquer contextos intelectuais e académicos…
Mesmo que a verificação desta última transversalidade seja bem mais complexa do que Sokal e Bricmont aparentemente supõem[i], essa aculturação das ciências naturais por aqueles outros autores não deixa de ser abusiva. E sem outros resultados do que a recíproca emulação destes últimos em grupinhos académicos e/ou presuntivamente intelectuais… que assim também se apresentam publicamente como estando a produzir obra que justifique que a restante comunidade lhes sustente o entretenimento.

Da tonteria nas ciências naturais...

Entretanto, de outro lado, também deveremos atender ao diabo nos detalhes para nos acautelarmos com colonizações culturais, ou disciplinares. Como esta que me foi apresentada, pareceu-me, no mesmo tom que imagino ter-se-á ouvido, em salões de séculos passados, nas invocações da salvação que o homem branco estaria levando aos pobres indígenas perdidos no lado de fora da Europa. Neste caso, “o homem branco” significa a comunidade dos matemáticos – pelo menos os que acompanham aquele dos seus pares a seguir referido; “os pobres indígenas”, significa o conjunto de todos quantos não comungam do corpo e sangue das estruturas puras e suas relações (supondo ser disso que trata a matemática); e “o lado de fora da Europa”, tal como então nos tais salões, significa todos aqueles sítios de onde, nesses meios, nada de bom se espera poder vir.
Refiro-me à proposta por um matemático, cujo nome higienicamente logo esqueci (sem menosprezo, claro, nem pelas obras matemáticas dele nem pelas do outro matemático que ma mencionou (numa das conversas das quais guardo uma bela recordação!), ou pelos seus gostos estéticos que por sinal partilho), de um algoritmo para avaliação do grau de beleza de quaisquer objetos em proporção ao grau de simplicidade destes últimos.
Encontro em tal projeto – uma vez assim formulado – um erro lógico e outro empírico.
O primeiro reside em que, quando se avalia a simplicidade… avalia-se a simplicidade! Para que esta seja equivalente, ou até idêntica à beleza falta ao argumento uma premissa que o afirme, a qual já não é de natureza matemática – antes ultrapassa, e condiciona, o referido algoritmo.
Nem essa relação é aceitável como axioma, pois a sua não intuitividade fica patente no reconhecimento do erro empírico de se tomar o uso do termo “belo” (e traduções aceites) como material, e não apenas como formalmente unívoco. Com efeito, este termo tem sido usado tanto em relação a objetos do estilo estético clássico – tendencialmente simples – quanto do barroco… e até a objetos do estilo romântico em que esse uso incorpora termos semanticamente contraditórios como “o belo horrível”, objetos que de simples nada têm.
E volto aos dislates lógicos para lembrar que não será por a proporcionalidade e simetria de um conjunto ser universalmente (ou quase) tomada como bela que a beleza então se esgotará nessas caraterísticas. A identificação da beleza com a simplicidade – ou com qualquer outro parâmetro matematicamente trabalhável – constitui pois apenas a expressão do juízo de gosto de algumas pessoas. De modo nenhum se reporta a qualquer juízo universal sobre que coisas satisfarão o predicado “belo”, e muito menos ao belo enquanto tal.
Pode ser que eu não esteja aqui a fazer justiça a uma proposta teórica de que apenas recebi notícia em segunda mão, numa comunicação relativamente informal, e há já uns quantos anos. Mas mantenho as linhas anteriores por achar que, ainda que porventura não sejam verdadeiras, serão bem encontradas. Aliás Sokal e Bricmont também alertam contra a precipitação de se formular, equacionar e resolver complexos problemas sociais e das humanidades mediante noções e práticas das ciências naturais, quando estas começam por não conseguir dar conta de diversas complexidades, porventura até menores do que aquelas, logo em sua casa.

...Às convenientes cautelas e caldos de galinha!

Quanto a aculturações e colonialismos culturais nos sentidos inversos – das humanidades, religiões… para dentro das ciências – muito pouco se terão verificado desde que os métodos indutivo-experimental e hipotético-dedutivo substituíram a observação natural segundo a especulação pura, no fim da Idade Média. Pelo que não lhes dedicarei mais do que este parágrafo. Mas, na medida em que tais inter- e transdisciplinaridades sofram degenerações equivalentes às acima apresentadas, o caso Sokal e o algoritmo da beleza também são encontrados para elas.
Em suma, um cuidado com as falácias do apelo à autoridade, do ataque à pessoa, da ambiguidade… – nada que os medievais não tivessem já denunciado – será em geral um bom começo para quem se disponha a pensar, e a comunicar os respetivos resultados, não só em qualquer área disciplinar, mas especialmente sobre quaisquer temas transdisciplinares, ou no seio de quaisquer empreendimentos interdisciplinares.
Quanto aos projetos de compreensão global… além de cautela e caldos de galinha talvez valha a lembrança, no precário equilíbrio entre as ciências sociais e as naturais, da medicina, na sua especialidade de psiquiatria, para o elogio (!) de uma esquizofrenia intelectual: qual Sísifo, na tensão não resolvida entre a não desistência de se visar aquela compreensão, e a desconstrução linguística e processual de cada empreendimento que a realize. A unidade, a ser possível, restará apenas para aquém do intelecto – num ser humano que se experimente em conformidade ao conceito (desconstrua-se!) de pessoa.




[i] Cf. e.g. Stephen Read, Thinking About Logic – An Introduction to the Philosophy of Logic, Oxford: Oxford University Press, 1995.
in: Ciência Hoje, julho 2015

Artigo publicado originalmente no e-magazine Tomate, Nº13, 15/03/2014, num reparo a este texto que tinha sido publicado no Nº12 da mesma revista digital (entretanto encerrada).

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