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"Começando a pirâmide pelo vértice" (Em Demanda da Europa)

«Uma boa metáfora para a unidade de diversos países é a pirâmide, na base da qual o vértice representa o pólo aglutinador, enquanto os pontos da base representam os elementos da união. Perguntando-se então pelo modo de construção dessa "pirâmide", talvez a resposta mais natural seja a de que se comece pelo vértice, de forma a impô-lo depois às diversas partes.
Foi esse o modelo geral na Idade Moderna.
É certo que já no nosso tempo houve uma tentativa análoga: a do III Reich. No entanto o nazismo opôs-se à civilização ocidental, invocando antes raízes da cultura germânica anteriores ao helenismo e à cristandade - como bem se percebe na redução da pessoa à raça, ou na obediência cega a um Führer. De forma que o III Reich pode ser considerado anacrónico, não sendo típico de qualquer época da nossa história. E de qualquer modo o seu sucesso foi o conhecido.
Na Modernidade ocidental a "primazia do vértice" teve o seu primeiro momento político no séc. XVI, com o império que Carlos V recebeu por herança dinástica - invocando portanto uma legitimidade alheia aos povos em causa. Mas este império revelou-se indiferente aos valores da Europa, ao ponto de ter levantado contra si uma aliança contra-natura da França com a Turquia, semeando a discórdia mais do que a concórdia. De tal forma que não sobreviveu à morte do monarca espanhol.
Foi bem diferente o caso de Napoleão Bonaparte, na passagem do séc. XVIII para o XIX. Assumindo um humanismo como é típico da cultura europeia, o imperador francês propôs-se libertar os povos da Europa dos velhos vínculos de servidão dos senhores locais. Os homens seriam iguais perante o Estado, numa união dos europeus sob um mesmo Código Civil, sob os mesmos princípios, interesses, etc. O seu projecto falhou, embora também seja verdade que deu lugar à Quádrupla Aliança entre a Rússia, a Áustria, a Prússia e a Inglaterra, estendida depois à França, e não a novos isolacionismos nacionais.
Este ideal de uma totalização europeia verificou-se também no campo teórico. Como a muito comentada proposta do filósofo alemão Imanuel Kant, no fim do séc. XVIII, para se unir a Europa sob o Direito - o crédito que hoje lhe poderíamos dar é o mesmo que as resoluções da ONU merecem... Ou ainda a compreensão de uma Europa enraizada no Cristianismo do Sacro Império Romano-Germânico, como a pensou o poeta romântico Novalis no séc. XIX - mas ultrapassando a Reforma protestante, e descurando o laicismo político da Modernidade, a sua compreensão da Europa nem chegou a fundar qualquer projeto político concreto.
A totalização europeia nunca veio portanto a cumprir-se.
Como aliás foi previsto ainda em 1800 por Friedrich von Gentz. Futuro conselheiro de Metternich - o arquitecto da concertação europeia após a vitória sobre Napoleão - esse autor não concebia a possibilidade da República universal pretendida pelos jacobinos da Revolução Francesa. Embora também pensasse ser demasiado perigosa a independência absoluta das nações europeias. Entre estes dois extremos, von Gentz considerava ser o federalismo uma quimera, por não acreditar que os Estados mais fortes aceitassem submeter-se às instituições federais. Pelo que restava um equilíbrio conseguido através de um jogo de alianças diplomáticas que anulasse qualquer supremacia nacional.
Foi precisamente esta última via que a Europa seguiu após o fracasso moderno. É a ela que dedicarei os próximos artigos. Podendo também lembrar desde já que foi essa via que nos trouxe através dumas décadas de paz... até às duas maiores guerras que a humanidade já conheceu, e à confusão em que presentemente nos encontramos.»

Publicado na série Em Demanda da Europa, em 1997, a "confusão" era a do discurso político se montar com frases sobre uma moeda única europeia que havia de ser "a pedra sobre a qual se ergueria a UE" (A. Guterres?)... meia dúzia de anos depois da implosão do império soviético, e no rescaldo ainda da guerra na Jugoslávia, apesar das respetivas moedas únicas!

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