A câmara orienta-se de um
corredor para o quarto onde dois rapazes orientais estão embrenhados em frente
de um televisor, manipulando freneticamente os comandos de pequenas consolas.
Semelhantes às que a imagem seguinte mostra nas mãos de outros dois rapazes,
aparentemente portugueses, numa manipulação igualmente furiosa até ao clamor de
vitória destes últimos, e os esgares de derrota do primeiro par.
Se alguém lhes perguntasse, os jovens desse anúncio
televisivo talvez dissessem “Estivemos a jogar futebol!”. Na minha juventude –
nesse jurássico sem internet nem telemóveis – esta expressão designava porém um
esforço do corpo todo, em arrancadas nas diversas direções, atentos aos
movimentos da bola e dos outros rapazes num espaço envolvente, em choque com as
forças deles, com a dureza da bola, do chão… das caneladas. Que diferença da
vivência de se estar sentado na beira de um sofá, raspando quando muito nos
cotovelos de alguém ao lado, ambos distraídos de tudo menos do retângulo
luminoso em frente, apenas com os polegarzinhos em frenéticos movimentos sobre
dois ou três botões!
Diferenças como essa sugerem a pergunta:
“Em que pessoas nos transformamos quando estamos online?”
“Em que pessoas nos transformamos quando estamos online?”
A qual serve de mote ao primeiro dos quatro painéis do colóquio sobre o impacto de novas tecnologias, que a Fundação Francisco Manuel dos Santos promove no Porto a 12 de junho. Todos nós que não temos a sorte de podermos ir à Casa da Música nesse dia podemos participar online no site da FFMS, numa página aliás já disponível e em curso. Mas… então transformando-nos em que pessoas? A pergunta deste painel – cujo título adotei para este pequeno artigo – torna-se assim transversal a todo o colóquio.
Sigamos precisamente a pista do título. Num dos mais
célebres argumentos de toda a história das ideias, René Descartes perguntou-se
pela garantia da existência de quaisquer coisas, concluindo que ao menos isso que se pergunta, que se angustia ou
alegra, que raciocina, etc., existe precisamente enquanto tais vivências
ocorrem. A isso, o filósofo e
matemático (também neurocientista…) francês chamou “eu”.
O argumento cartesiano está errado, pois a constatação
reflexiva daquele curso de vivências mentais – entre elas a de que o eu tem um
corpo – tanto abre ao postulado de uma sua origem ou princípio comum, como ao
mero reconhecimento do encadeamento de certas vivências. Isto é, pode ser que
exista um eu que sustente, que seja o
agente de uns atos mentais; e pode ser que o eu seja simplesmente o conjunto destas vivências. Nada naquela
constatação permite dirimir logicamente essa alternativa.
A qual se mantem aberta. Na esteira por exemplo do
escritor alemão Friedrich Nietzsche (A
Vontade de Poder, compilação póstuma), mas considerando agora os recentes
dados das neurociências, o filósofo britânico Julian Baggini argumenta em The Ego Trick (2011) que a palavra “eu”
apenas designa uma interação de vivências corporais, memórias, mesmo das
intervenções em relações sociais. A inclusão destas últimas no eu, bem como da referência direta ao
corpo, é o que julgo mais colocar a pergunta da FFMS em relação a casos como o
do nosso exemplo inicial – já voltaremos aí. Entretanto retenhamos a denúncia
por Baggini de que será um logro procurar isolar um eu que se distinga disso tudo, qual seu suporte.
Diferentemente, o filósofo e psicólogo norte-americano
William James (Principles of Psychology,
1890) distinguia entre um eu (self) objeto conhecido, e outro eu (self) sujeito
que se conhece. Independentemente da dificuldade de identificar este último,
aquilo que se podia observar nas pessoas parecia implicá-lo.
E aqueles de nós que argumentamos – talvez pelas
pistas que deixei em “Em 2015 continuo a supor que poderíamos ter pedidobaunilha…” – que o ser humano é radicalmente livre, temos que supor (e justificar
teoricamente!) algo como esse eu-sujeito, como fonte radical das nossas
escolhas, e então também fonte do sentimento que cada pessoa normalmente tem da
unidade do seu fluxo de vivências. Há supostos mais fáceis…
O lembrete do corpo
O lembrete do corpo
Enfim, a estrutura do eu que exista quando penso,
quando faço login, etc., e assim que decide sobre tudo isso, mantem-se
discutível. Mas, na determinação do que faça parte do eu-objeto, será avisado
considerar as extensões de Baggini ao corpo e às intervenções sociais.
O que nos traz de volta à substituição da bola num
campo por uma pequena circunferência brilhante num écran. Que “eus” passam a
existir quando assim também substituímos as pernas por uma consola nas mãos? E
quando chamamos “amigo” a um username com uma qualquer foto numa rede social, quando
trocamos o ensino de um professor por um programa de auto-ensino num
computador, quando…
Esperemos que respostas a estas
perguntas, além das já ali anunciadas sobre novos riscos para a liberdade,
etc., ainda que limitadas e provisórias, nos sejam propostas no colóquio Admirável
Mundo Novo da FFMS. Mais o “saber de experiência feito” de todos nós que aí
participemos virtualmente!
in: Ciência Hoje, 21/05/2015
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