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Industrialização e "conjuntos sociotecnológicos" - O caso dos laticínios açorianos

As verbas do novo Quadro Comunitário de Apoio, e do programa do BCE para compra de dívida aos bancos europeus, estão supostamente destinadas à produção de bens e de serviços transacionáveis, e em particular a uma reindustrialização de Portugal e da Europa. Urge porém esclarecer se bastam a promulgação de regulamentos e a disponibilidade financeira, mais a capacidade tecnológica igualmente disponível, para que tais processos industriais e produtivos se cumpram. Ou se, ao contrário, para este cumprimento teremos de cuidar ainda de outras condições. E neste caso, quais.
A primeira dessas teses – que aqui discuti há perto de um ano – é a “de um determinismo tecnológico – a tecnologia seria a variável independente de uma função de alterações sociais”. A segunda convoca o que Wiebe Bijker (Of Bicycles, Bakelites, and Bulbs: Toward a Theory of Sociotechnical Change) chamou “conjuntos sociotecnológicos”. A favor dos quais julgo colocar-se o caso da modernizaçãodos laticínios açorianos, em particular na ilha de S. Miguel.

A fileira do leite nos Açores...

Indiciando todavia algum condicionamento tecnológico da sociedade, desde essa modernização industrial verifica-se nos Açores uma “forte concentração da estrutura da produção primária e da indústria agrotransformadora na produção de leite e lacticínios” (Prorural 2014-2020: 14). A fileira do leite representará assim a maior parte dos setores primário e da indústria transformadora. Pelo que valerá perto do dobro do segundo setor de produção de bens transacionáveis – alojamento e restauração – em relação ao valor acrescentado bruto. E talvez mais do triplo em relação à população empregada (INE 2014). Sendo que é em S. Miguel que se recolhe e transforma mais de metade do leite bovino do arquipélago (SREA 2014). Além disso, toda a paisagem açoriana veio a ser humanizada em função da produção leiteira. O resultado daquela modernização industrial não é pois coisa despicienda.
Mas, também a favor do condicionamento simétrico, desde logo verifica-se que a relevância socioeconómica dessa fileira produtiva não é uma constante da história açoriana, nem resultou de uma paulatina adequação de sucessivas gerações às condições físicas insulares – no que seria um determinismo geográfico.
Tal como não decorreu do exercício normal da racionalidade económica pela generalidade dos agentes, nomeadamente numa sua adequação ao mercado do pós-guerra – num determinismo económico.
Ao contrário, o crescimento e sustentação da fileira do leite em S. Miguel resultou, primeiramente, da iniciativa dos dois sócios da Lacticínios Loreto, Lda., à revelia, se não mesmo em oposição a todos os outros produtores e industriais. Não sendo de desconsiderar a intervenção de um quadro superior da Direção Geral dos Serviços Pecuários, no seu acompanhamento da conjuntura económica internacional, além dos requisitos sanitários e higiénicos para o setor agroalimentar nacional.
 Antes porém sequer dessa decisão sobre a implementação da tecnologia moderna disponível, este é mais um caso (ainda repetindo palavras do mesmo artigo aqui do ano passado) “que nega às tecnologias quaisquer essências ou identidades definidas ao arrepio dos usos concretos que se lhes deem”. Pois, aparentemente, essa decisão foi a resultante da discussão surda sobre o sentido mesmo da tecnologia em causa – como instrumento de progresso da maioria dos envolvidos no setor, versus instrumento do benefício dos poucos que a controlassem à custa dos restantes.
A demora desta disputa alienou a possibilidade dos agentes económicos locais deterem nas décadas consequentes uma posição dominante na fileira de produção de que participavam – por se deixarem ultrapassar no setor da respetiva indústria transformadora. À atenção do Portugal de março de 2015: nestes jogos tudo se arrisca a ter consequências.

...e os technological frames

Em todo o caso, da iniciativa e da perseverança dos dois industriais mencionados parece ter resultado um “technological frame” (Bijker) para todo o consequente processo modernizador. Isto é, um padrão de práticas, no seio das estruturas físicas e sociais micaelenses relativas aos equipamentos técnicos de laticínios, que terá orientado depois quer os restantes agentes locais – facultando-lhes alguma participação numa fileira economicamente consistente – quer porventura mesmo os empreendimentos externos nos laticínios micaelenses – como sua referência local.
Retomando a questão inicial, a sugestão que retiro deste caso é que uma eficiente reindustrialização do país não dependerá, linearmente, da mera existência de regulamentos, dinheiro, e máquinas. Estes fatores integrar-se-ão antes num “mútuo condicionamento entre a sociedade (organizações) e a tecnologia”. Ajustando estas minhas palavras aqui escritas em abril passado, reforçarei agora o peso que as iniciativas pessoais podem ter no polo social dessa dialética.

in: Ciência Hoje, 06/03/2015

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