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Em 2015 continuo a supor que poderíamos ter pedido baunilha...

Ao longo do ano há pouco terminado, o Edge.org colocou à discussão a questão What scientific idea is ready for retirement? Jerry Coyne apontou como resposta a ideia de livre-arbítrio:

Não, não poderíamos tê-la pedido

When pressed, nearly all scientists and most philosophers admit this. Determinism and materialism, they agree, win the day. But they're remarkably quiet about it. Instead of spreading the important scientific message that our behaviors are the deterministic results of a physical process, they'd rather invent new "compatibilist" versions of free will: versions that comport with determinism. "Well, when we order strawberry ice cream we really couldn't have ordered vanilla", they say, "but we still have free will in another sense. And it's the only sense that's important."
            Duvido que o sentido compatibilista de “livre-arbítrio” seja o único que é importante… ou sequer que importe significativamente. Depois, no meu escasso conhecimento das razões de “quase todos os cientistas e a maioria dos filósofos”, inclino-me para a conclusão oposta à desse professor de ecologia e evolução em Chicago (a ignorância é atrevida!).
Começo por onde estamos de acordo. De um lado, o compatibilismo reduz a autodeterminação da vontade de comer gelado de morango – um critério normal do livre-arbítrio – a uma nossa assunção da nossa disposição para o pedir, pela razão de que este sabor é o que se afigura melhor satisfazer o nosso paladar. Mas sem que, consciente e voluntariamente, sejamos a causa quer daquela disposição, quer das razões, quer do comportamento (enunciação) do pedido.
Duvido porém que seja concebível que o valor associado ao morango (quanto ao sabor, preço, nutrição…), e o valor associado à baunilha – decidindo nós apenas por reconhecermos que o primeiro valor será maior do que o segundo – possam surgir associados às ideias de cada um dos sabores sem qualquer intervenção livre do sujeito… Fica a questão aberta.
De outro lado, a possibilidade efetiva de tanto ter escolhido morango quanto baunilha – mais um critério normal do livre-arbítrio – eventualmente será reduzida pelas teorias compatibilistas à possibilidade de que a nossa vontade tivesse assumido a opção pelo segundo sabor, assim a isso fosse ela determinada.
Mas, deste modo, troca-se a efetiva possibilidade de o termos pedido em vez de morango, pela mera possibilidade de que a nossa vontade tivesse sido determinada a favor da baunilha. Me parece que este ajustezinho compatibilista terá um efeito sobre a tese do livre-arbítrio equivalente ao da restauração que aquela senhora espanhola fez numa pintura da igreja da sua aldeia.
De outro lado ainda, segundo os compatibilistas diríamos ao empregado “…de morango, por favor”, quer assumíssemos as razões deste pedido, quer nos mantivéssemos alienados delas. Dispensando assim o critério da consequencialidade das escolhas, também normalmente atribuído ao livre-arbítrio.
Resta saber se esta dispensa não remeterá a questão do livre-arbítrio para a mesma classe de importância da velha questão do sexo dos anjos.
Se essas pistas argumentativas levarem a bom porto[1], restar-nos-á então um de dois incompatibilismos: ou o livre-arbítrio é verdadeiro e o determinismo materialista é falso, ou vice-versa; além da possibilidade de serem ambos falsos, e vivermos ao sabor dos ventos. É nesta encruzilhada que me inclino para a alternativa contrária à do autor acima citado.
Antes de mais, a frequência de compatibilidade entre intenções, atos e consequências, julgo tornar pouco provável a tese aleatória.

Ou talvez tenhamos podido...

Posto isso, a observação natural apresenta-nos uma enorme diversidade de alternativas, como a culinária entre sabores de gelados. Mais as linguísticas e comunicacionais, de comportamentos sexuais, obras artísticas, teóricas, técnicas, políticas… Geradas por um homo sapiens que a genética atual concebe como bastante homogéneo.
Ora me parece teoricamente convidativo articular esses dois dados numa liberdade radical (sem prejuízo de influências ulteriores) e criatividade dos indivíduos desta espécie. Até porque também em ambientes naturais semelhantes se encontram culturas distintas; assim como a mesma em ambientes naturais distintos – não serão pois estes a determinar aquelas.
         É certo que as interpretações dos resultados de experiências laboratoriais de processos neuronais, uma vez que estes pareçam ser correlativos aos processos de escolha observada, podem contradizer dados da observação natural das mulheres e homens nos seus comportamentos naturais.
Mas, sempre que isso aconteça, direi que se arriscam a ser válidas tantas vezes quanto os resultados daqueles esforçados alunos de matemática que não falham um cálculo, mas que por desprezaram o português não interpretam devidamente o enunciado dos problemas… É com isto em mente que acompanho como posso investigações laboratoriais como esta – que põe em causa precisamente uma das interpretações invocadas por Coyne na sua argumentação contra o livre-arbítrio.
            Para quem, contra tudo isso, insistir ainda que “o determinismo e o materialismo ganham o dia”, restará enfim a tarefa de rebater W. Daniel Hillis, que na mesma página do Edge.org, em “Cause and Effect”, aponta que “the cause-and-effect paradigm (…) falls apart when we try to use causation to explain complex dynamical systems like the biochemical pathways of a living organism, the transactions of an economy, or the operation of the human mind”.
Ou seja, retirando-o à base da anterior recusa do livre-arbítrio, a ideia científica do determinismo absoluto é que poderá dever ter sido passada à reforma em 2014.


[1] Para uma excelente análise resumida da problemática do compatibilismo entre determinismo materialista e livre-arbítrio (pp. 87-94), mais o desenvolvimento do argumento compatibilista (pp. 94-109) oposto à sugestão que aqui deixo, v. André Barata, “Livre-arbítrio e Determinismo”, in: Sentidos de Liberdade, pp. 85-109 (com o mérito deste filósofo português não dizer que o seu é o único sentido que importa!)

in: Ciência Hoje, 01/01/2015

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