Com
a aproximação do natal vem-me à memória uma série de argumentações, com base
nas ciências naturais, que recorrentemente concluem com a inexistência de um
Criador. Simetricamente à literatura de cordel que, eventualmente invocando a
mesma base, anuncia antes uma fórmula de Deus. Na verdade, seria esplêndido se entre
tubos de ensaio ou demonstrações de teoremas se resolvesse esta questão – para
um lado ou para o outro. Infelizmente, porém, os grãos podem começar a entrar
na engrenagem dessa resolução logo na dispensa dos primeiros bancos da antiga
escolástica.
Onde os futuros teólogos, juristas ou médicos,
além de gramática e retórica, estudavam lógica, ficando alertados contra
falácias como a do “homem de palha” – por referência ao alvo de golpes e
investidas nos treinos dos cavaleiros: 1º) assume-se um determinado inimigo;
2º) desvia-se a investida para um seu simulacro; 3º) derruba-se este último;
4º) anuncia-se a vitória sobre, não uma mera figura de palha, mas o guerreiro invocado.
Por exemplo:
1º. Visar o postulado de um
Criador. Historicamente feito como resposta à questão de por que há algo em vez
de nada, uma vez que se não reconheça nisto tudo uma autofundamentação.
2º. Ignorar a questão deste último
reconhecimento, e desviar a questão anterior para a do começo da sucessão em
que nos encontramos – numa única dimensão de trás para diante; ao passo que a
questão original acrescenta, e acentua, uma dimensão perpendicular que abrirá
cada ponto ou segmento daquela outra a um meio de onde virá a sustentação que
se não encontre naqueles. (Tenho ideia que S. Tomás de Aquino apontou que essa
questão do começo é irrelevante para a anterior, mesmo que se estenda para trás
infinitamente a dimensão da sucessão – se não estou errado, então aquela
ignorância e desvio requerem ainda a habilidade de se evitar todo e qualquer
teólogo que facilmente informaria sobre esse apontamento com mais de 700 anos).
3º. Demonstrar a indiferença de
algum Criador para o começo do universo, uma vez que a conceção deste não
recorra a um tempo absoluto e independente das dimensões espaciais, que a
correspondência entre massa e energia permita uma autocriação de “pacotes” da
primeira… (Aqui me parece necessária uma segunda falácia: a da ambiguidade,
pois toma-se “nada” como nada-de-massa, um nada relativo no seio de uma
pressuposta concentração de energia física, ao passo que os interlocutores visados
usam aquele termo num sentido absoluto, que nega igualmente qualquer tal
pressuposto).
4º. Enfim – qual campeão de
habilidades num torneio medieval com os restos do boneco de palha esfacelado
aos pés, anunciando a vitória sobre exércitos… que ameaçam do outro lado das
fronteiras – anunciar a contingência do postulado inicialmente visado.
O que está muito bem, assim como qualquer habilidade simétrica
que conclua com a necessidade desse postulado… se se pretender não ultrapassar
os limites da feira. A quem se dispuser, porém, a enfrentar obstáculos que
realmente entravam os homens, convém começar antes por vencer a prova dos
primeiros bancos de escola.
in: Ciência Hoje, 09/12/2014
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