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Manifesto por uma cultura prescritiva (ag. 2013)

Numa entrevista a este jornal, a 26/11/2012, lembrei que “desde 1820 organizámo-nos republicana e monarquicamente, democrática e autoritariamente, como país europeu e como império ultramarino, proclamámo-nos sociais-democratas e conservadores… mas o nosso PIB per capita nunca saiu da banda entre os 40% e os 75% da média dos países que, desde 1993, constituem a União Europeia”. Longas séries como essa sugerem que, além das facilmente reconhecíveis responsabilidades pessoais e incoerência de sucessivos complexos institucionais, no problema português haverá também um factor cultural.
Mas só vale a pena enfrentá-lo assumindo uma acepção prescritiva de “cultura”, em detrimento da acepção descritiva que no nosso país tem grassado mesmo em meios intelectuais que se afirmam opostos entre si.
Julgo ser este o caso dos pós-modernos, que relativizam todas as práticas, ideias… às comunidades que as implementam, pelo que, sobre tais culturas, restará apenas descrever como se apresentam e desenvolvem.
Mas também creio ser o caso de autores que circularão no âmbito da revista Nova Águia, na sombra que vai de Fernando Pessoa a Agostinho da Silva… Como Carlos H.C. Silva, que afirma interessar “não o «sistema» coerentemente unificado mentalmente, (…) mas o «método» (…) de uma realização cultural” – embora eu confesse que a ausência nesse seu artigo de qualquer argumentação que justifique o desinteresse pelos produtos de tais realizações, substituída por uma sucessão de incontáveis referências bibliográficas desvinculadas de um efectivo cuidado de coerência, me parece constituírem as “Dimensões essenciais da cultura” (Didaskalia, 1999, v. pp. 198, 199) como um conjunto de frases mais ou menos soltas que não chegam sequer a descrever unificadamente alguma proposta que o autor pretendesse realizar. Enfim, valerá a recomendação de “aquele ‘olhar de soslaio’, aquela ironia” (op. cit., p. 225)… mas para a aplicar primeira, integral e ironicamente a esse próprio artigo, e não tanto a todos os outros produtos culturais como Carlos H.C. Silva pretende.
Tudo isso está tão bem quanto os entretenimentos do xadrez, do futebol, etc., mas apenas enquanto as ideias que assumimos, as práticas que desenvolvemos, vão facultando um mundo subsistente. Quando este último racha impõe-se implementar antes uma cultura prescritiva – nem que seja para que um dia se possa voltar à mera descrição de tais dificuldades passadas, ou até para (claro que a partir do resguardo duma qualquer confortável biblioteca!) se olhar ironicamente para o que as tiver entretanto solucionado.
Esta outra acepção de cultura não enjeita a avaliação dos produtos das realizações culturais, nem a proposta compreensiva, tão justificada quanto possível, dos «sistemas» que assim melhor pareçam facultar um mundo subsistente.
Este tem sido o projecto por exemplo da revista The New Criterion em relação à cultura ocidental em geral, e à norte-americana em particular. Cujo director, Roger Kimball, realça aliás que a raiz etimológica latina de “cultura” significa precisamente a selecção e a alimentação cuidadosa do que se cria, a sua formação, refinação, e avaliação final.
Daí também o apelo de Jerome Kagan em The Three Cultures (Cambridge: Cambridge University Press, 2009, p. 242): “The uncertainty and cynicism that characterize the current historical moment cry out to the next cohort of humanists to initiate a crusade”. Só um cultivo, só uma cruzada assim nos poderão facultar o sustento que pelo menos desde 1820 tem faltado em Portugal.

in: Açoriano Oriental, 07/8/2012 - série "Novas conferências do Casino", em desenvolvimento do ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos.

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