Este é o provocante título do número de julho-agosto
da revista de divulgação científica La
Recherche (Nº 489), em função do seu Dossier “Qu’est-ce que le réel?”. Ou
mais precisamente, e parafraseando a pergunta de Einstein no título do artigo
de P. Ball (pp. 30-34): será que a cerveja que há pouco poisei ao meu lado, tão
fresca e borbulhante depois do primeiro gole, aí continua enquanto tenho o
olhar poisado nessa estimulante leitura de férias?
A resposta do modelo standard da física, no artigo
referido e alguns seguintes, é paradoxal. De um lado, pretende-se conceber a
cerveja por redução sua a um pequeno menu de partículas e respetivas forças de
interação. Mas, do outro lado, enquanto a montagem destas últimas no que
chamamos “cerveja” bem parece manter-se entre dois goles, as suas partículas
apenas ficam determinadas em cada observação – A parede mantém-se, mas não os
seus tijolos!
Um universo platonista
Um universo platonista
O Dossier começa logo com uma resposta geral ao
respetivo título, na entrevista em que Max Tegmark (pp. 24-27), professor de
física no MIT, apresenta o seu livro Our
Mathematical Universe: My Quest for the Ultimate Nature of Reality (Nova
Iorque: Alfred A. Knopf, 2014):
A constituição do cosmos desmultiplicar-se-á em quatro
níveis. No primeiro encontra-se o nosso universo – uma esfera com tudo o que
nos é observável – mais aquilo de que não teremos notícia porque, supondo a
inflação da expansão logo após o (nosso) Big Bang, a luz que assinale tudo isso
nunca nos chegará, constituindo assim outros universos com as mesmas leis da
física, mas eventualmente com diferentes combinações das partículas elementares
(pudessem os seus habitantes viajar mais depressa do que a luz, e ainda nos
encontraríamos com seres estranhos como os que povoam os filmes de ficção
científica!). A teoria daquela inflação cósmica estabelece um mecanismo de
produção de Big Bangs; como não é provável que esse mecanismo apenas atue uma
vez, no nível II abrir-se-ão tantos multiversos quantos os Big Bangs que
ocorram. Cada um destes porventura com leis físicas diferentes (noutro
multiverso onde a matéria se possa deslocar até mais depressa do que a luz já
aqueles encontros fantásticos poderão verificar-se). Entretanto, no nível III,
dispõem-se os universos paralelos preditos por Hugh Everett na base da teoria
quântica, em cada um dos quais se desenvolverá uma das histórias possíveis
(haverá um universo em cuja Terra se encontrará um Portugal em tudo igual a
este, menos na incapacidade de produzirmos o que queremos gastar… a não ser que
esta história esteja fora do leque de possibilidades lógicas!). Finalmente, no
nível IV, encontram-se as estruturas matemáticas que enquadram, ou regem, as
combinações dos níveis anteriores.
Apenas estas permanecem independentes do que as
ultrapassa. Pelo que Tegmark, assumindo-se como “platonista extremo”, considera
que elas constituem a única realidade – ou seja, a estrutura composta pelos números
naturais e pela operação de adição será real, mas não tanto eu e a cerveja que
damos corpo à soma que nos reúne num par. Esse autor confia que até a
consciência, que se embaraça nestas conceções, virá um dia a ser explicada na
base de tais estruturas.
Entretanto, segundo a proposta do também físico Giacomo
Mauro D’Ariano (pp. 48-51) – na esteira de Richard Feynman e de J.A. Wheeler –
suponho que poderemos comparar a consciência a um projetor de hologramas, aos
quais se assemelharão desde eu, a cerveja, os neurónios que constituem o
cérebro que suporta a minha consciência… até ao menu de partículas que nos
comporão. Pois essas projeções ocorrerão na base do plano ainda mais radical de
outras partículas meramente virtuais, e muito menores, caraterizadas como
simples pontos de verificação dos estados de informação binária (1 / 0). Qualquer
daqueles, por assim dizer, holograma, será então determinado segundo princípios
informacionais, ainda por estabelecer, com que o imenso computador quântico que
será o universo combinará – no nível III de Tegmark – as três posições
informacionais quanticamente possíveis em cada pixel (termo usado por este professor em Pavia) cósmico – 1, 0, 1 e
0.
E algumas objeções anti-platónicas
E algumas objeções anti-platónicas
Do filme Matrix
(1999), invocado por D’Ariano para ilustrar a virtualidade do que normalmente
tomamos como “real”, até àquele recente livro do seu colega anterior, muitas
serão as pistas de leitura que se abrem diretamente nos doze artigos e
entrevistas, mais as recensões de algumas obras relevantes, neste Dossier
especial da La Recherche. Mas provocação
com provocação se paga. Pelo que apontarei antes outra pista mais radical do
que uma ingénua assunção do platonismo matemático:
Afinal que fundamento têm por sua vez as estruturas ou
princípios onde aqueles autores propõem fundamentar os objetos físicos? Desde
há pouco mais de um século os matemáticos e filósofos têm-nos fundamentado por
meio da teoria dos conjuntos, formulada por Georg Cantor. Cuja hipótese do
contínuo – entre o infinito descontínuo (
) e o contínuo (
) não haverá mediação – me parece implicada pelo juízo de D’Ariano de que
teremos de escolher entre uma conceção descontínua (mediante os tais pixéis) dos campos quânticos e outra
contínua (como no anteriormente referido modelo standard).
Ora ainda há menos de um ano Natalie Wolchover
deu notícia da reabertura da
discussão da validade dessa hipótese ou conjetura. Com uma das linhas de
argumentação a não reconhecer essa necessidade de escolha definitiva entre
aquelas duas conceções físicas; levando à fundamentação da determinação dos
objetos e operações matemáticas… na consciência que os assume e usa. E não só a
esperança de Tegmark de explicação futura desta última, mas todo o edifício
concetual que nos propõe, mais a aposta descontínua de D’Ariano, etc., se
poderão virar de pernas para o ar!
Quanto aqui à cerveja, entretanto um pouco menos
fresca e borbulhosa… bem, resta-me gozá-la enquanto as férias duram. Por menos
que saiba o que dela, das ditas férias, e de mim, se deverá dizer propriamente
“real”.
in: Ciência Hoje, 05/08/2014
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