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Por uma assunção da retórica na ciência

No início do mês passado ocorreu no Porto o II Congresso de Comunicação de Ciência – SciCom PT 2014 – cujo Livro de Resumos dá bem conta da enorme diversidade e fecundidade dos temas ali abordados, designadamente sobre a relação entre a referida comunicação e o desenvolvimento. Que esse Congresso quase tenha passado ao lado não só dos opinion makers nacionais, mas até dos simples noticiários, pese embora o reconhecimento comum quer do impacto das ciências e tecnologias na vida quotidiana, quer simetricamente do condicionamento social sobre a atividade tecnológica e científica, será mais um sinal da “dificuldade em conseguir chamar a atenção do público para conteúdos de ciência, num ambiente tão carregado de informação e entretenimento”.
Aliás tenho a ideia de que foi precisamente nesses dias que a seleção pisou solo americano, encontrando-se cada câmara da televisão portuguesa, cada correspondente da nossa imprensa, dedicados a informar-nos sobre a ordem exata pela qual os jogadores saíram da sala de desembarque, a registar o enésimo penteado de CR7… Referência que ainda mais invoca o título da comunicação dos autores da frase acima citada, Paulo Fontes e José Azevedo, no Painel 1 desse Congresso:

“Será o Marketing o conceito em falta para uma comunicação de ciência no séc. XXI?”

Esta pergunta, ou hipótese de resolução da dificuldade antes mencionada, parte da observação de que, “geralmente, marketing e comunicação ‘caminham de mãos dadas’, com alguma simbiose e complementaridade entre si. Mas no caso específico da comunicação de ciência, notamos uma geral ausência de utilização de estratégias ligadas ao marketing”. Para uma aplicação daquela hipótese resolutiva, caberá pois explicitar o que crie essa especificidade científica ao arrepio da relação geral entre comunicação e marketing.
Desde logo, nem deverá ser por mera distração de cientistas, nem por um seu juízo de irrelevância sobre tal comunicação. Pois há mais de meio século que no marketing se enfatiza a perspetiva do público sobre a do produtor; e há 30 ou 40 anos que se cuida da diferenciação e segmentação, da criação de marcas, etc. Por mais apropriada que fosse a imagem do “cientista maluco, distraído…”, parece que seria tempo para se terem dado conta de tais evoluções! Por outro lado – e para já nem falar de questões de cidadania – quanto mais a big science do séc. XX avançou para megaprojetos laboratoriais; quanto mais os diretores de departamentos de investigação têm de convencer industriais do interesse em financiá-los… ou convencer políticos do interesse público nesse financiamento (o que em democracia remete para convencer o eleitorado – a NASA que o diga), menos o juízo de irrelevância científica sobre a comunicação de ciência parece razoável.
Posto isso, complementarei a pergunta de Fontes e de Azevedo com esta outra: será a substituição das estratégias retóricas das ciências contemporâneas a evolução em falta para uma comunicação de ciência do séc. XXI?
A posição desta hipótese decorre do que a própria ciência oferece sobre comunicação em geral. Nessa área distingue-se a escola processual e a semiótica. A primeira explicita os elementos do processo comunicativo – e.g. emissor, recetor, código, canal… O problema aqui em causa não é porém tanto da ordem da possibilidade de transmissão de informação científica, mas antes da opção por esta última da parte de um público já “carregado de informação e entretenimento”. Trata-se pois da produção do próprio significado de cada fórmula transmitida, nomeadamente como uma mensagem indispensável ou não, e da determinação dos comportamentos relacionados à comunicação. O que nos remete para a escola semiótica.

A lição semiótica

Na tradição de C.S. Peirce e de F. Saussure, “comunicar” é produzir algum significado na base de signos – além de índices (e.g. a obesidade sê-lo-á de muito apetite, desregulamento hormonal…) e de símbolos (e.g. os sinais do Código de Estrada); mas os primeiros são ostentados sem intenção pelo emissor, e os segundos, pela sua natureza analógica, são limitados a mensagens simples, pelo que a comunicação científica não se lhes poderá reduzir. Relevante para esta última é que quaisquer signos são constituídos por um “significante” (suporte material – e.g. riscos e pontos), e um “significado” (a representação mental indexada ao fenómeno material recebido). E a significação não é uma função que, a um dado significante, pudesse fazer corresponder um só significado.
Diferentemente, a construção dos significados é sempre contextual, envolvendo quer a cultura dos interlocutores; quer as competências, interesses… de cada um deles em cada ato comunicacional; quer o funcionamento dos elementos isolados pela escola processual (e.g. nível de ruído). Por certo pode-se reduzir essa margem de ambiguidade – mas mesmo o significante constituído pelos riscos que compõem a figura “H2O” suportará significados não absolutamente idênticos conforme seja considerado por um leigo em química, por um químico reducionista e por um químico emergentista em disputa num laboratório… ou por qualquer destes uma vez perdido no Saara.
Na ausência de “caixas pretas” que, a algum significante input, fizessem corresponder mecanicamente um só significado output, toda a comunicação, incluindo pois entre colegas e concorrentes cientistas, fica eivada de estratégias retóricas pelas quais cada interlocutor procura convencer os demais do significado que aquele atribui aos significantes transmitidos entre eles. Além de quais devem ser os significantes a transmitir, que comportamentos lhes devem corresponder, etc.

A retórica de uma diluição da retórica

Poderemos assim, afinal, tomar como exemplo acabado do marketing centrado no consumidor a opção do tema a tratar num artigo científico, por parte de um académico que sabe, por um lado, quais os temas que estarão sendo tratados por um maior número de investigadores, e, por outro lado, que a sua progressão na carreira depende de um currículo cheio de artigos citados muitas vezes…
Enjeitando no entanto toda essa produção científica sobre a comunicação em geral, enquanto se dedicam a outros temas que não este último, os herdeiros do positivismo dos fins do séc. XIX, ou da revolução científica do séc. XVII, reivindicam “caixas pretas” diluidoras de quaisquer ambiguidades. Sobre tais cientistas, uma vez que segundo a semiótica a retórica é incontornável, caberá dizer que a sua estratégia retórica é a do branqueamento desta última. Não necessariamente de forma consciente e intencional. Em todo o caso não deixam de fazer lembrar estratégias sofisticadas de marketing, como a do “Pague 1, leve 2!”, em que se desvia da vista do comprador o custo de um objeto para que aquele tenha a impressão de que não lho estão a vender.
Esse branqueamento terá a virtude de economizar discussões fundamentais, e metodológicas, em muitas investigações pontuais. Mas, além do pormenor de violar ingénua ou acriticamente os resultados científicos nessa matéria, terá dois defeitos: por um lado, ao apagar aquelas discussões demite-se também da otimização das estratégias retóricas que cumpram o objetivo geral científico da melhor justificação possível. (É essa demissão que abre a porta a teses, ou sequer hipóteses, como umas que aqui trouxe na minha crónica anterior…).
Por outro lado, no lugar de alguma tensão entre o uso de umas estratégias retóricas na comunicação interna à ciência, e o uso de algumas outras na sua comunicação externa – e.g. a “surpresa, novidade e apelo à curiosidade são decisivos” na segunda, mas na primeira não podem substituir a verificabilidade intersubjetiva, etc. – esse branqueamento abre um abismo entre a pretensa recusa de qualquer retórica no trabalho propriamente científico, e o reconhecimento da conveniência (necessidade!) dessas estratégias em função de decisões externas que não só permitem ou impedem a existência do trabalho científico, como mesmo frequentemente o orientam.
A não ser que de facto a ciência seja tarefa de Indianas Jones, diria que a resolução daquela tensão, por difícil que seja em alguns casos, deverá conseguir-se mais vezes, e com resultados menos maus, do que quaisquer saltos sobre um abismo. Também por isto convirá assumir a retórica no seio da comunicação científica.
in: Ciência Hoje, 03/07/2014

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