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Perspetivando os próximos invernos - interrogações como que na ponte de um superpetroleiro

Com a chegada da primavera, depois do que os telejornais mostraram neste inverno sobre a vulnerabilidade da orla marítima portuguesa às alterações da agitação e nível do mar, além de tantos outros alarmes climáticos, convirá recordarmos uma conhecida comparação feita a quaisquer respostas a tais alterações: são como a reorientação de um grande navio em alto mar, têm de se preparar com antecedência, só sendo eficazes se se considerar todo um complexo de fatores. E seremos muitos, quase todos, os ocupantes quer da casa das máquinas, quer mesmo da ponte deste navio. Visto que, para que o superpetroleiro que assim habitamos ajuste a rota, não bastará que uns poucos detenham um conhecimento funcional sobre o clima, sobre a adequação socioeconómica local às consequências da sua alteração, e sobre as condições globais da respetiva retificação.

As condições de eficácia... e 2 conjuntos de perguntas

Com efeito, logo para a tomada de decisão em ações que se querem eficazes, Cecilia Hidalgo e Claudia E. Natenzon (na esteira da Organização Meteorológica Mundial) salientam que não chegará a produção e disponibilização de conhecimentos climáticos. É necessária uma dialética entre cientistas, decisores e leigos em geral, numa “coprodução” daquele conhecimento, ajustando-o ainda a cada região. Pois este não será funcional se se circunscrever a quaisquer séries de fenómenos naturais, que se correlacionam, a montante, com as intervenções humanas sobre eles; a jusante, com as consequências destas alterações climáticas nas sociedades e economias; e, mediando esses dois momentos, com os modos como cada sociedade responde às alterações que sofre. Uma coprodução que implica não apenas conhecimentos sociais além dos naturais, mas mesmo a participação dos restantes agentes da sociedade, quer pelos outros tipos de conhecimento – concreto, prático, avaliativo… – que estes têm das situações visadas pela ciência, quer numa aplicação desta que se quer eficaz. Ou seja, qualquer teoria climática TC envolve o grupo social G em que é produzida, proposta, aplicada, e avaliada. Pelo que, logo num primeiro sentido de coprodução desse conhecimento climático em cada região portuguesa, importa facultar a referida dialética entre todos os seus agentes.
O que me conduz a um primeiro conjunto de interrogações. Será necessária i) uma compreensão razoável, ainda que não sistemática, das teorias climáticas por parte dos leigos. Mas, tanto quanto me apercebo, ii) a popularização do conhecimento científico tem sido formulada de mais de uma maneira: ou como uma simplificação… e assim frequentemente adulteração do conhecimento científico, apenas conveniente para cativar eleitores contribuintes que possam travar o financiamento científico, para a arregimentação de auditórios que reforcem (mediante uma falácia social…) a tese de alguns cientistas contra outras (na ciência tal qual ela também se faz!), etc.; ou essa popularização constitui a resposta a um défice cognitivo da população, o qual é moralmente errado à luz do valor de uma cidadania ativa, requerendo-se uma divulgação científica que faculte aquela compreensão global, sem padecer de adulterações simplistas. Qual é porém iii) a exequibilidade desta divulgação? Aliás, porque se assumirá sequer o valor da cidadania ativa e crítica, não se deixando quaisquer questões a cargo dos respetivos especialistas acima das popularizações?…
Espreitando pelos binóculos do alto da ponte do nosso navio já me embaraço nesses bancos de nevoeiro… Mas ainda outras interrogações nos acometeram recentemente no NECTS quando nos dirigimos à casa das máquinas – ou seja, às condições de cumprimento de quaisquer decisões tomadas. (Por sinal, tomámos como base de reflexão a versão preliminar do esquema geral de apropriação sociocultural da tecnologia que Mario Toboso-Martín veio propor em janeiro, na mesma publicação em que Hidalgo e Natenzon abordaram o processo de apropriação social da teoria climática, cuja opção de princípios nós logo tínhamos acrescentado àquele esquema).
Pois, i) para que se potencie o uso de uma tecnologia T por um grupo social G, convém que o menor subgrupo de G seja o das pessoas que se recusam a usar T, ultrapassado pelo subgrupo dos que a usam habitualmente, com a maior parte da população a dispor-se a este uso. Para isso, desde logo ii) têm de ser derrubadas quaisquer “barreiras atitudinais” – i.e. eventuais valores de G que sejam violados pelo exercício ou efeitos de T, de modo que o grupo social se recuse a apropriar-se dessa tecnologia. Mas a mera negação dessas barreiras não garante a apropriação tecnológica. Positivamente, convém iii) que em G se implementem discursos favoráveis ao exercício e aos efeitos de T, facilitando, induzindo mesmo a apropriação desta última num seu “uso significativo”. Discursos esses retoricamente tão mais potentes quanto mais esse exercício e efeitos tecnológicos satisfizerem os valores relevantes no grupo social. Assim como convém iv) que o uso de T se alargue a outros “âmbitos práticos” (laboral, de lazer…) além daquele para que diretamente tenha sido assumido, numa potenciação dessa tecnologia. Pela minha parte, creio que o uso significativo de cada tecnologia terá ainda de incluir a subordinação desta aos valores e princípios que justifiquem e fundem o seu uso, e segundo os quais serão avaliados e identificados os seus efeitos. Cuidando-nos entretanto de discursos que atribuam a T significados que lhe impeçam quaisquer desenvolvimentos e extensões a outros âmbitos… como, num exemplo que já apontei noutro sítio, o do Sr. Simplício Costa (António Silva, em O Costa do Castelo, 1943) sobre a telefonia no pequeno grupo da pensão da Sra. Rita!
As interrogações que então se me levantam, sobre as diferentes regiões do país tal como sobre esta onde vivo (relativamente à qual Rui Coutinho aponta alguns avisos e recomendações…), v) são se os valores e princípios da cultura portuguesa incorporam os valores e princípios implicados pelas tecnologias ambientais? Se estas satisfazem os nossos valores e princípios mais relevantes? E se a cultura tecnológica portuguesa, relativa às questões climáticas, se encontra estendida a outros âmbitos práticos que não apenas esse?

Para uma arrumação das perguntas

Dessas respostas dependerá o grau de apropriação sociocultural portuguesa das tecnologias que facultem a nossa melhor (“menos má”?) adequação local possível às alterações climáticas previstas, bem como o nosso (pequeníssimo!) contributo para a correção global destas. E creio que da resposta ao primeiro conjunto de interrogações dependerá o modo de se implementar uma coprodução de conhecimentos climáticos regionais, que por sua vez constituirão uma apropriação social desta área científica. Assim saibamos nós aumentar as lentes dos binóculos por que espreitamos na ponte do nosso superpetroleiro, e diminuir o ruído das comunicações até à casa das máquinas, assim como olear estas últimas.

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