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Então não diremos que o império mongol se estendeu aos Açores?...

O Ciência Hoje deu a notícia há três anos. Mas, como não estive atento, só há cerca de dois meses soube da hipótese – imagino que os membros da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA) preferirão dizer da verosimilidade – das ilhas açorianas terem sido habitadas bem antes da chegada de Gonçalo Velho Cabral. Designadamente por povos mediterrânicos. Não resisti à tentação, e logo contribuí também para esse peditório (“científico”?), sugerindo que, equiparavelmente verosímil, será que o império mongol “aqui veio fechar a tenaz com que Genghis Khan, como grande estratega militar que todos sabemos ter sido, terá planeado fechar os povos europeus e árabes que a norte e a sul do Mediterrâneo fugiam ao avanço mongol” – concretamente, montando vigia no piquinho do alto da montanha na ilha do Pico. E por um breve período julguei-me arqueólogo… isto é, já me via de chapéu de abas largas, casaco de couro e chicote na mão!

Indiana Jones...

A perturbar-me o devaneio, veio agora porém um estudo do Centro Superior de Investigações Científicas (CSIC) que, relativamente ao povoamento de outro arquipélago da macaronésia, também o data muito antes dos Descobrimentos portugueses. Mas invertendo o método dos investigadores da APIA: “os quais, independentemente de ainda se não conhecerem os resultados dos exames de datação (nem os protocolos laboratoriais implementados… meros detalhes técnicos) de ‘líquenes’ que porventura se encontrem no interior dos maroiços, e de ‘anzóis, pontas de metal…’ ali parece que achados, afirmam que essas pirâmides [maroiços] poderão ter sido construídas antes do povoamento português. Visto que, primeiro, reconhecem ‘paralelos’ entre aquelas estruturas de pedra picarotas e outras na Sicília e nas Canárias. As quais, entretanto, se provou remontarem às Idades do Bronze ou do Ferro”. Ao invés, a equipa do CSIC trabalhou no ambiente muito menos aventureiro de laboratórios, procedendo à datação de certos objetos (ossos de ratos), na legitimidade reconhecida aos protocolos usados (relativos ao ADN, etc.).
Resta-me assim uma alternativa: ou restauro a minha disposição arqueológica, talvez orientando antes para os vikings o método do “reconhecimento de ‘paralelos’ e coincidências”; ou desisto deste método e, a ir passar férias ao Pico, arranjarei outro entretenimento que não o de procurar alguma arca perdida. A questão é a do método que confira a maior verosimilidade às nossas ideias – estabelecendo uma relação formal entre dados e teorias que constitua estas últimas como “científicas”, numa demarcação de meras “opiniões”, “sugestões”…

...E o pormenor do método

Em primeiro lugar, essa é mesmo uma questão, pois nenhuma série de dados “fala por si própria”, dispensando assim algum método que a relacione a qualquer teoria explicativa de tais dados. Podemos representar esta infradeterminação empírica das teorias com a imagem de um amontoado de pontos (quais dados), que normalmente nem serão sucessivos, entre os quais haverá que escolher aqueles que se ligarão diretamente por linhas (quais teorias), e de cada vez por qual das linhas possíveis – nenhum conjunto de pontos por si só determina apenas uma linha que os reúna.
Além disso a questão do método complica-se, em cada investigação, pela dificuldade de reduzir todas estas a um único modelo. O historiador da ciência A.C. Crombie reconheceu mesmo cinco formas de estabelecer aquelas relações entre dados e teorias: por medições experimentais; mediante modelos hipotéticos; por postulados ou axiomas e provas dedutivas; por análises estatísticas de populações e cálculo de probabilidades; e pela combinação histórica de dados (como na arqueologia).
À exceção da dedução a partir apenas de axiomas – cujo estabelecimento cabe esclarecer… – é frequente reunir-se as restantes formas de relação sob o conceito de “indução”: o delineamento de um quadro explicativo geral e compreensivo, na base de um número limitado de observações relevantes para aquele quadro, mediante procedimentos que se julga permitirem essa generalização. O problema é que assim talvez não cheguemos a demarcar o que quereremos chamar “conhecimento científico”.

A questão da demarcação

Com efeito, o filósofo da ciência Rudolf Carnap ainda tentou reforçar o método indutivo pela exigência da confirmabilidade crescente. Todavia, mesmo que este crescimento alguma vez tenda para o infinito (!), a pretensão puramente empírica da indução tropeça no reconhecimento de que não receberemos quaisquer dados com qualidades apenas próprias – por exemplo as cores: experiências psicológicas sugerem que, se dividirmos uma quantidade de uma substância colorida em duas partes, e colocarmos cada uma em contextos de coloração diferentes, em ambas aquelas partes serão percecionadas cores diferentes. Virando ao contrário palavras de Carnap, diremos pois que em todas as observações se abre uma “profundidade” na qual se jogam escolhas subjetivas e/ou teóricas, que condicionam a “superfície” daquelas observações. Não será portanto esse empirismo lógico a facultar uma demarcação definitiva entre as teses dos vikings a desembarcar na Madeira, e dos mongóis vigilantes no alto do Pico (ainda que tenha de reconhecer que, pela exigência de confirmabilidade crescente, os investigadores do CSIC me levarão algum avanço).
Já em piores lençóis ficam teses como essa última uma vez confrontadas com o método, e critério de demarcação proposto por Sir Karl Popper. Este grande filósofo da ciência e da política reconheceu ainda alguma doação empírica, mas apenas negativa. A saber: i) a criatividade humana (não necessariamente por indução) faculta hipóteses sobre a questão em causa; ii) delas deduzem-se consequências plausíveis; iii) montam-se experiências que assinalem a ocorrência de tais consequências; para iv) se não ocorrerem, negar-se a hipótese; se ocorrerem, esta ser mantida até prova em contrário. Neste último caso a hipótese não será no entanto verificada (reconhecida como “verdadeira”), pois outra experiência poderá vir a facultar aquela prova negativa. Em conformidade, os conhecimentos “científicos” são aqueles cuja falsidade pode ser reconhecida – ex. a hipótese de povoamento na Madeira apenas pelos portugueses, com a consequência de que nenhuns vestígios (como de ratos domésticos) poderão ter mais de quinhentos anos. Já as meras “opiniões”, “sugestões”… furtam-se ao crivo falsificacionista – ex. que o piquinho no alto do Pico tenha sido erguido por mongóis.
Contra a minha decisão de que estas linhas seriam mais reduzidas… e contra a minha filiação na pista epistemológica de Popper, tenho porém que mencionar a objeção a essa pista na base de outro grande filósofo do séc. XX, Willard V.O. Quine: cada crença – ex. que certos ossos tenham mais de quinhentos anos – depende de uma rede de crenças em que se integra – ex. que o objeto observado está corretamente etiquetado (os ossos tenham sido mesmo recolhidos na Madeira); que a radiação do carbono varia proporcionalmente com a passagem do tempo… De modo que, negando-se alguma previsão, o erro tanto se poderá encontrar na hipótese, como nos procedimentos experienciais, nos respetivos utensílios, etc. O que de cada vez se testa será assim a rede inteira de crenças que esteja em jogo, segundo a sua consistência versus contradição, e não por referência a quaisquer dados independentes ainda que meramente negativos.
Historiadores e sociólogos da ciência, abordando esta última tal qual ela se faz (e não como idealmente talvez devesse ser feita), têm precisamente apontado que diversos investigadores, quando não obtêm um resultado que esperavam, alteram o protocolo experiencial, verificam ou substituem os instrumentos… antes de reconsiderarem a hipótese. Será o caso desde Newton a insistir numa teoria infirmada pela observação, preferindo supor um defeito nas lentes utilizadas, até porventura investigações bem subsidiadas pelas indústrias alimentar, farmacêutica, do armamento, petrolífera, etc. (À cautela, afinal talvez seja melhor eu deixar à mão o chapéu de abas largas que uma das minhas filhas me ofereceu há tempos).
Por outro lado, um curioso corolário do falsificacionismo é que frases que os lógicos reconhecem como necessariamente verdadeiras, e bem justificadas, parece não poderem constituir conhecimento “científico”. É o caso das tautologias – ex. nenhum solteiro é casado – nas quais não se encontra qualquer eventual falsidade que possa ser despistada. Ou seja, a ciência fica arredada logo daquelas afirmações que melhor representariam o seu ideal de justificação e certeza.
Mas daí poderá decorrer a falência de toda esta proposta falsificacionista: tem sido apontado que na sua maioria, se não na generalidade as teorias falsificáveis dificilmente não implicarão postulados apenas lógicos ou teóricos. Uma vez que estes não passam pelo crivo da cientificidade, aquelas não merecerão tal classificação (se formulada popperianamente).
Entretanto, à margem da questão do método – que relacione dados e teorias – talvez a demarcação (se a há!) entre a minha tese mongol mais as equivalentes, e a tese escandinava do CSIC, se deva procurar mais noutro parâmetro. Por exemplo, nos comportamentos (desinteressados, etc.) dos respetivos autores…
Até se esclarecer um pouco tudo isso, temo que o ponto de interrogação e as reticências tenham de ficar no título acima.

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