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A burocracia e as TIC (esta dádiva de algum deus suspeito!)

Em período de entrega das declarações do IRS pela internet… lembro-me da esperança, que terá sido bastante comum, de que a substituição das máquinas de escrever que quase não permitiam correções dos textos, dos grandes ficheiros de madeira ou metal, das resmas de papel, dos estafetas e correios, etc., pelas tecnologias de informação e comunicação (TIC) digitalizadas, viesse, automaticamente, reduzir toda a sorte de papelada que não parece ter outra serventia além de impor uma autoridade que de outra forma se reduziria a uma dúzia de funções colaterais; que viesse aliviar a estrutura hierárquica, técnica e logística de boa parte daqueles postos que servirão especialmente bem os afilhados; que viesse agilizar e otimizar a tomada de decisão nas organizações. Para as quais, assim, os mais otimistas chegaram a propor a classificação de “infocráticas”, no lugar das organizações “burocráticas” da II Revolução Industrial.

Infocráticos... e bosquímanos

Foi também mais ou menos por essa altura que Jamie Uys filmou Os Deuses Devem Estar Loucos, de que um amigo recentemente me lembrou a propósito da questão da essência das tecnologias – nesse caso não das “TIC” (então ainda apenas embrionárias), mas dessa coisa que chamamos “uma garrafa de Coca-Cola”.
Antes porém de voltar a esta questão, e ainda quanto à anterior esperança, pela minha parte julgo-me hoje mais afogado em emails e SMS’s do que alguma vez o terei estado em papéis; perdido por entre menus informáticos com nomes conhecidos apenas pelos profissionais da área técnica em causa… Uma vez que esta condição seja ainda mais comum do que o terá sido a esperança infocrática, (e inspirado até em semana de 25 de abril!) dessa última restará dizer que foi mais um daqueles amanhãs que era para ter cantado.
Para isso, no entanto, teria que se verificar o pressuposto de um determinismo tecnológico – a tecnologia seria a variável independente de uma função de alterações sociais, de modo que a qualquer avanço na primeira corresponderiam melhorias na vida social. O qual foi entretanto desconstruído por Wanki Paik e Seoyong Kim no Encontro Anual de 2012 da Society for Social Studies of Science, precisamente sobre a introdução e desenvolvimento das TIC em organizações burocráticas (nomeadamente públicas).
Segundo o estudo empírico que estes autores implementaram na Coreia, caraterísticas burocráticas como a hierarquia, o grau de competência técnica, e o volume de informação inútil quando não contraproducente (“red tape”, pela cor da fita que amarrava a antiga documentação burocrática inglesa), condicionam o efeito das TIC, quer imediatamente na eficiência e na eficácia das organizações, quer depois na estrutura destas. Por exemplo, desde logo não é límpido que a qualidade dos sistemas de informação determine diretamente a qualidade das decisões tomadas no topo estratégico das organizações. Depois, a efetivação das TIC é moderada por caraterísticas burocráticas, ao variar inversamente com a estratificação hierárquica e com o peso da red tape em cada organização que implemente essas tecnologias. Ou ainda, enquanto a qualidade dos sistemas de informação contribui para uma redução da red tape, bem como da segmentação organizacional, hierarquias muito estratificadas anulam ou diminuem estes efeitos.
Resultados como esses, porém, não sugerem um determinismo sociológico inverso ao anterior – uma absoluta identificação de cada tecnologia pelo grupo social que a implemente. Visto que a qualidade dos sistemas de informação, além do contributo já referido, condiciona a poupança de tempo na organização, bem como a centralização da tomada de decisão, e a descentralização da informação disponível aos membros da organização.

Tecnologia/sociedade, sociedade/tecnologia, tecnologia/...

Ou seja, o estudo de Paik e Kim apresenta-nos um mútuo condicionamento entre a sociedade (organizações) e a tecnologia. O que vem de encontro, aliás, à análise geral que nega às tecnologias quaisquer essências ou identidades definidas ao arrepio dos usos concretos que se lhes deem – É em cada um destes que se identificam essas coisas que chamamos “TIC”… como era neles que os bosquímanos do filme ensaiavam as inúmeras essências possíveis de uma “garrafa de Coca-Cola” que lhes caíra do céu (de onde todos sabemos que só nos chegam dádivas dos deuses).
Por conseguinte, sobre a efetivação de algum programa informático, de alguma plataforma de comunicação… em cada organização concreta que os adote, importa começar por atender às condições culturais e organizacionais desta última. Por exemplo, em quaisquer sociedades e/ou organizações cujas hierarquias de valores privilegiem a autoridade em detrimento do espírito crítico, a responsabilidade em detrimento da iniciativa, etc., a hierarquia organizacional tenderá a ser rígida e estratificada. Logo, na medida em que os resultados obtidos pelos dois investigadores coreanos lhes forem extensíveis, os graus de utilização e ganho de tempo dessas novas tecnologias informáticas serão aí reduzidos. O que pode ser compensado mediante uma elevada competência profissional… A qual será porém desconsiderada segundo uma hierarquia de valores que privilegie as relações sociais em detrimento do trabalho…
Não devendo entretanto todos quantos participem do sistema de informação de alguma organização esquecer-se de que a sociedade e a cultura resultam da interação de inúmeros agentes – como precisamente as organizações. As quais intervêm social e culturalmente seja através do marketing dos seus produtos, da escolha de matérias e técnicas (como as TIC que implementem tais sistemas) que utilizam, das suas políticas de contratação (ex. no valor atribuído à competência), etc.; seja pelas suas intervenções institucionais em diversas associações, perante órgãos do poder local ou nacional, em programas escolares… As suas comunicações externas contribuem assim para a construção da sociedade e da cultura que, recursivamente, enquadram as organizações.
É pois em conformidade à ética institucional, e à definição da missão de cada organização, que se estabelecerá se os deuses de onde lhes terão chegado as TIC estão ou não loucos. (No caso das Finanças não tenho grandes dúvidas).
in: Ciência Hoje, 21/04/2014

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