Em mais uma das suas
inestimáveis intervenções culturais e cívicas, a Fundação Francisco Manuel dos
Santos não só convidou o Nobel de Fisiologia/Medicina Sir Paul Nurse a
apresentar uma comunicação “about how science enhances our culture and our
civilization...”, no passado dia 24 de janeiro, como ainda a disponibiliza
online bem como a uma pequena entrevista ao também presidente da Royal Society[1].
A fé de Sir Paul
A fé de Sir Paul
Começou o conferencista por
afirmar (ou argumentar?…) que “science matters (…) improving the quality of our
lives”, da saúde às comunicações, passando pelo aquecimento doméstico, a
alimentação mundial, etc. Mas, continuou, “to be successful” a ciência tem que
se comprometer plenamente com a sociedade, e que funcionar multi- e
interdisciplinarmente. Além destas condições intrínsecas, o sucesso da
investigação numas paragens (ex. Portugal) dependerá extrinsecamente do respetivo
esforço de financiamento não ser substancialmente inferior ao esforço feito noutras
localidades (ex. China, Alemanha…).
Na entrevista em que estes
exemplos foram apontados, imagino que terão sido os critérios jornalísticos a
puxar ao título a questão financeira, e aí circunscreveram a exposição. É
natural: dirigindo-se essa revista ao público de quem o cientista inglês
observou “I’ve noticed intelligent phones are very popular in Lisbon” – um
público pois que muito valoriza pelo menos esse tipo de gadgets – e quando as
reclamações pelos cortes nas bolsas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia
estão na ordem do dia, não só parecerá despiciendo interpretar aquela primeira expressão,
como ainda será pacífico que o sucesso do empreendimento científico variará
diretamente com o investimento financeiro nele feito – atire-se dinheiro para
cima dos laboratórios e investigações de campo, que a nossa vida de certeza
melhorará se não for para a semana… será já para o ano! Como porém, à margem da
ciência, diz o antigo senso comum, o
diabo está nos detalhes.
Sobre a fé que o presidente da Royal Society, logo em seguida nessa sua
conferência, revela no trabalho laboratorial, na despistagem de hipóteses
erradas… enfim, na exequibilidade – e não apenas na idealidade orientadora – do
modelo moderno das ciências, só se choverem canivetes é que, tão racionalmente quanto me for possível,
deixarei de voltar no Tomate. Mas
desta feita limitar-me-ei às condições intrínsecas que Sir Paul Nurse aí apontou;
em correlação à interpretação das suas palavras, e à questão de uma certa
premissa oculta que uma dessas interpretações então requererá.
Por um "civilizacionamento" das ciências
Por um "civilizacionamento" das ciências
Esse seu apelo à
interdisciplinaridade fez-me lembrar de uma outra entrevista, há já uma década,
a Isabelle Stengers[2].
Designadamente, pela aspiração desta filósofa das ciências e química a um “civilizacionamento”
das ciências, num arrepiar caminho da big
science das últimas décadas. Caraterizando-se este modelo científico por
meios instrumentais pesadíssimos (financeira e tecnicamente), que por isso
tendem a subordinar as hipóteses a testar em vez de serem estas a subordinar a
elaboração daqueles; levada a cabo por equipas de profissionais, normalmente em
rede com outras mas estritamente da mesma área de investigação ou da respetiva aplicação
direta; de modo que cada profissional ou bem que se especializa num pequeno
problema que os demais reconheçam, o explora segundo um equacionamento também
reconhecido nessa comunidade como plausível, e escolhe um e o outro entre
aqueles que logrem rapidamente resultados publicáveis segundo os ditos
reconhecimentos dos seus pares… ou vai para o fundo de desemprego.
Onde muito provavelmente encontraria,
assim trabalhassem eles agora, o Charles Darwin que se desviou da classificação
taxonómica dos espécimes que encontrasse para a formulação de uma lei da
evolução das espécies tão geral que logo ultrapassou o âmbito da biologia. Como
ultrapassou o âmbito da física o princípio de incerteza formulado por Werner
Heisenberg – outro candidato ao rendimento social de inserção, que não é diretamente de tais princípios que
resulta mais uma aplicação para telemóveis.
Ah! Mas seria já talvez caso de
baixa por doença mental, imagino que julgasse a funcionária do centro de
emprego, aquele Alberto que se lembrou de propor, em alternativa à força da
gravidade que nunca ninguém viu mas toda a gente sabe que se estica entre nós e o chão, um enquadramento do
movimento dos corpos de vez a quatro dimensões… Porventura o que julgou a
comunidade dos economistas (clássicos) sobre J.M. Keynes, quando este concluiu
que a melhor resposta à depressão económica não seria facilitar a oferta, mas,
ao contrário, apoiar a procura.
De tais teorias heterodoxas,
gerais, por vezes inverificáveis além de alguns casos pontuais, tanto nas
ciências naturais quanto nas sociais e humanas, e com aplicações frequentemente
imprevisíveis, se encheram os cem anos que vão de meados do séc. XIX a meados
do séc. XX.
E por uma racionalidade filosófica nas ciências
E por uma racionalidade filosófica nas ciências
Todos esses excêntricos, me
parece, deixam porém uma questão aos tarefeiros que hoje labutam a recibos verdes nos laboratórios da big science que sucedeu àquele século. Como
não só Stengers mas o próprio Nurse reconhecem nas respetivas entrevistas, o
trabalho de recolha de dados não substitui o do tratamento, e interpretação, da
informação. O que implica categorias como tempo, causalidade, objeto, etc., cuja
determinação não resulta de quaisquer observações, mas da especulação teórica…
ou então é importada daquele mesmo senso comum de que a ciência moderna se
pretendeu distinguir.
Ou seja, sem se remontar
repetidamente ao nível mais abstrato, especulativo e desinteressado, o grande
formigueiro da mui responsável e séria big
science arrisca-se a entrar numa autogestão cega – veja-se a questão por
que começou a entrevista a Isabelle Stengers – e facilmente destituída de
sentido. Qualquer coisa como um futebolista que avançasse fintando todos os
adversários que lhe aparecessem no caminho… rumo à bandeirola de canto e não à
baliza.
Um desnorte que me remete para o
sentido das palavras de Sir Paul Nurse. Se a expressão “to improve the quality
of our lives” constitui apenas uma forma sintética de referir melhoramentos pontuais
na saúde, e nas comunicações, e na energia… então o presidente da
Royal Society limitou-se a afirmar um
truísmo. A sua escolha das palavras em diversas passagens, porém, deixou-me com
a impressão de que ele se estaria a referir à vida humana na sua integridade. Quer dizer, a qualidade da
vida humana variará proporcionalmente com tais melhoramentos, identificando-se
com o somatório deles e não com uma sua articulação – a qual pode faltar mesmo
quando não falte comida no frigorífico, nem o telemóvel de última geração… tal
como pode ocorrer ainda que faltem boa parte destas coisas. De modo que a
ciência será a nossa maior esperança para a felicidade coletiva.
Este argumento esteve relativamente em voga há coisa de um século atrás.
Mas o cientismo (como ficou
conhecido) será paradoxal, se não mesmo aporético. Logo à partida porque, por
definição, o que a saúde melhora é o desempenho físico, mais as funções mentais
das pessoas; o que um telemóvel desenvolvido melhora são as comunicações entre estas;
etc. Para que essas melhorias pontuais constituam a melhoria da vida falta pois uma outra premissa
que estabeleça que a qualidade da vida humana se reduz ao somatório daquelas
melhorias particulares.
Como, porém, os advogados do
cientismo costumam limitar o nome “ciência” às investigações de cada uma dessas
partes – ao arrepio de justificações filosóficas sem recurso a experiências
controladas – nenhuma ciência poderá ascender à discussão de tal premissa. Isto
é, cientificamente não se conseguirá
uma justificação forte de que a ciência melhora a vida humana.
Desconfio que haja sequer caminho
para uma justificação mais fraca na base do postulado (= “pedido que se
aceite”) de tal identidade. Pois ainda assim teremos de acordar em variáveis,
mensuráveis, da vida boa. Desde logo é capaz de não ser fácil estabelecê-las
sem recorrer a opções puramente especulativas, ou emocionais; mas aceitemos que
as que se refiram a alienações – do álcool e drogas ao suicídio, passando pelos
nerds de laboratório –
aproximar-se-ão pela negativa, isto é, variarão inversamente com a felicidade.
Todavia, em primeiro lugar, não
sei se é possível atribuir valores a essas variáveis, com alguma garantia, ao longo
do tempo em que se verifique progresso científico-tecnológico, eliminando a
contribuição de quaisquer outros fatores que também ocorram e possam afinal ser
relevantes para tais alienações, de forma a verificar aquela eventual relação
inversa.
Em segundo lugar, intuitivamente,
pela minha parte não só diria que não tem… como mesmo arriscaria que nestes
tempos de reality shows, festivais de música transe, e outros transes em praias
à noite brincando com o mar bravo, a coisa tem é piorado! (Mas talvez isto seja
conversa de velho a cumprir mais um aniversário).
Uma interpretação cientista (não “científica”) das
palavras de Sir Paul Nurse desconfio pois que tenha pernas para andar. Em
troca, a mais humilde asserção de que a ciência e a tecnologia podem melhorar a
saúde das populações, as comunicações e transportes… é uma
evidência histórica. Para o que muito convirá que ambas se civilizem. Além de requererem, naturalmente, recursos financeiros. Contudo,
a percentagem da rubrica de investigação e desenvolvimento no orçamento de
Estado, e o seu simples aumento ou diminuição relativamente ao passado recente,
estará para a explicação científica do
mundo assim como o número de ofertas, e a relação entre esse número num ano e o
número no ano anterior, está para a qualidade do natal do primo do Harry
Potter.
[1]
P. Nurse, “Ciência, cultura e inovação”, FFMS, 24/01/2014.
“Cortar na investigação é como queimar a semente do milho”, Visão, Nº 1090, 23/01/2014.
[2] I. Stengers, “Et si un jour les sciencesdevenaient civilisées…”, La Recherche,
Nº 367, Septembre 2003.
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